IFF/Fiocruz inicia 26ª edição de curso sobre violência contra crianças e adolescentes e reforça importância da atuação em rede

 

O Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) deu início nesta segunda-feira (10/8), à 26ª edição do curso “Violência contra crianças e adolescentes: a intersetorialidade na prevenção e no atendimento”. Realizada às segundas-feiras de agosto, a iniciativa reúne profissionais de diferentes áreas para discutir o reconhecimento, a prevenção e o atendimento às diversas formas de violência que atingem crianças e adolescentes, com ênfase na atuação integrada da rede de proteção.

A abertura contou com a participação do diretor do Centro de Estudos Olinto de Oliveira (CEOO), José Augusto Alves de Britto; da gestora da Área de Atenção Clínica à Criança e ao Adolescente do IFF/Fiocruz, Thaize Sobreiro; da coordenadora de Educação do Instituto, Carla Trevisan; e do diretor do IFF/Fiocruz, Antônio Flávio Meirelles.

Mesa de abertura (Foto: Bruno Guimarães)

Ao dar as boas-vindas aos participantes, José Augusto Alves de Britto, ressaltou a relevância da iniciativa, que chega à sua 26ª edição sob a coordenação da pediatra Rachel Niskier. Ele também destacou a inclusão do curso no período de Residência da instituição. “Vocês sairão daqui mais informados sobre a temática. Pelo conjunto que está proposto, teremos lições de vida, aprendizados e sensibilizações. Esse curso é bastante amplo nas oportunidades”.

Thaize Sobreiro chamou atenção para o agravamento dos indicadores de violência contra crianças e adolescentes. Ela citou dados recentes que mostram aumento de ocorrências como maus-tratos, abandono, estupro de vulnerável e casos de bullying e cyberbullying. “Não podemos desistir de olhar, escutar e acreditar que podemos fazer algo para interromper esse ciclo de violência, porque toda criança e todo adolescente têm direito a crescer em um ambiente protegido e seguro”.

Na sequência, Carla Trevisan enfatizou o papel da formação profissional para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo ela, diante da complexidade dos casos de violência,

os serviços de saúde precisam estar preparados para oferecer muito mais do que assistência clínica. “É necessário que a gente tenha uma escuta qualificada, um acolhimento e um conhecimento para saber lidar com essas situações”.

Encerrando a abertura, Antônio Flávio Meirelles, celebrou a longevidade da iniciativa e o interesse crescente do público. “Nada que dura 26 anos é uma coisa fútil ou dispensável. Este curso se consolidou como um evento extremamente especial, reunindo profissionais de referência e promovendo qualificação em um tema que faz parte do cotidiano dos serviços de saúde”, afirmou.

Rachel Niskier agradeceu a presença dos participantes da mesa, destacando a importância da atuação coletiva na criação e consolidação do Núcleo de Apoio aos Profissionais que atendem crianças e adolescentes vítimas de maus-tratos (NAP) do IFF/Fiocruz. O NAP foi construído a partir do trabalho conjunto de diferentes profissionais do Instituto e tem como missão oferecer apoio interdisciplinar às equipes que atendem crianças e adolescentes vítimas de violência, contribuindo para a definição de condutas eficazes de atenção e prevenção. Ao final de sua fala, manifestou a expectativa de reencontrar os participantes durante a continuidade da 26ª edição do curso. “Espero que estejamos todos aqui reunidos nas próximas semanas”.

Rachel Niskier (Foto: Bruno Guimarães)

Violências múltiplas e novos desafios digitais

A primeira aula, “Violências contra crianças e adolescentes: das relações familiares aos espaços digitais”, foi ministrada pela professora e pesquisadora do IFF/Fiocruz, Suely Deslandes. A partir de dados sobre o cenário brasileiro, a pesquisadora propôs uma reflexão sobre a diversidade das infâncias e das formas de violência. Ela sustentou a ideia de que não existe uma experiência única de infância: diferenças sociais, territoriais, raciais, culturais, de gênero e de orientação sexual interferem nas experiências de crianças e adolescentes e precisam ser consideradas pelos profissionais.

Suely alertou para a necessidade de compreender a violência para além das relações familiares. Segundo a pesquisadora, além das violências interpessoais, é necessário considerar as violências estruturais e comunitárias. A violência estrutural, explicou, está relacionada a condições sociais e políticas que negam direitos e oportunidades, como a falta de acesso à creche, à escola, à alimentação adequada e a outros serviços essenciais. Nesse sentido, a proteção de crianças e adolescentes é uma responsabilidade compartilhada entre família, comunidade, Estado e sociedade.

A pesquisadora também abordou as violências interpessoais, como agressões físicas, psicológicas e sexuais, além da negligência, e apresentou dados sobre essas formas de agravo em notificações registradas pelos sistemas de informação em saúde.

Outro ponto de destaque foi o crescimento dos riscos relacionados ao ambiente digital. Cyberbullying, comunidades misóginas, aliciamento em jogos on-line e o uso de inteligência artificial para produzir imagens sexualizadas de crianças e adolescentes foram alguns dos fenômenos apresentados como novos desafios para os profissionais. Suely defendeu que essas situações passem a fazer parte do repertório de conhecimentos das equipes responsáveis pelo cuidado e pela proteção desse público. “Os profissionais da saúde precisam incluir as violências digitais no seu escopo de competências. Esse é um desafio contemporâneo que exige atualização permanente”, alertou.

Suely Deslandes (Foto: Bruno Guimarães)

O papel da observação e da escuta qualificada

Em seguida, José Augusto Alves de Britto conduziu a aula “A atenção à criança e ao adolescente e a percepção do pediatra na consulta: olhar sem ver, ouvir sem escutar e a prevenção da violência”.

O pediatra frisou que a proteção deve começar desde os primeiros mil dias de vida, que inclui o pré-natal. Entre os aspectos abordados estiveram parto humanizado, aleitamento humano, estresse tóxico e acompanhamento do desenvolvimento infantil.

José Augusto falou sobre a importância de identificar situações de violência que nem sempre se manifestam por marcas físicas evidentes. Para ele, a consulta representa uma oportunidade estratégica para perceber sinais de negligência e outras vulnerabilidades. “As violências física e sexual muitas vezes aparecem de forma mais evidente. Já a negligência exige observação, diálogo e sensibilidade para reconhecer aquilo que está oculto”, explicou.

Durante a apresentação, ele ressaltou que a anamnese (entrevista clínica) e a observação são ferramentas fundamentais para identificar comportamentos, relatos inconsistentes e outras situações capazes de sinalizar possíveis violações de direitos. O pediatra destacou ainda a necessidade da percepção coletiva e do trabalho entre diferentes profissionais, já que uma observação feita por um integrante da equipe pode complementar ou revelar algo que outro não tenha identificado.

Enfermagem e Serviço Social na rede de proteção

A enfermeira e gestora do ambulatório de Pré-Natal, Rozânia Bicego, apresentou a aula “Cuidar para proteger: enfermagem na prevenção da violência contra crianças e adolescentes”. A partir de dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), ela evidenciou o crescimento das notificações de violência contra crianças e adolescentes e chamou atenção para a subnotificação. “A notificação não tem caráter punitivo. Ela é uma ferramenta de proteção que ajuda a interromper ciclos de violência e a acionar a rede de assistência”, afirmou.

Em sua exposição, reforçou que a enfermagem ocupa uma posição estratégica na rede de cuidado por estar presente nos diferentes níveis de atenção e, muitas vezes, ser o primeiro contato da criança ou da família com o serviço de saúde.

Rozânia defendeu a ampliação do olhar da equipe, para que o atendimento não se limite ao problema que levou a criança ou o adolescente ao serviço. Escuta qualificada, observação clínica, identificação de vulnerabilidades, fortalecimento de vínculos, orientação às famílias e articulação com a rede de proteção foram apresentados como componentes do cuidado.

Concluindo a programação apresentada no primeiro dia, a assistente social do IFF/Fiocruz, Isabelle Bonisolo, ministrou a aula “Escuta, acolhimento e proteção: o atendimento do serviço social à criança e ao adolescente frente à suspeita de violência”. Em sua fala, abordou a atuação do serviço social, salientando que a função dos profissionais não é investigar ou julgar, mas garantir proteção e acesso a direitos.

A profissional argumentou que o sofrimento de crianças e adolescentes, em algumas situações, pode ser ignorado ou minimizado inclusive por integrantes da própria rede de proteção, contribuindo para a continuidade das violações. Para ela, a atenção dos profissionais é fundamental para que situações de violência sejam identificadas e enfrentadas, evitando abordagens moralizantes e compreendendo o impacto das desigualdades sociais, econômicas e raciais na vida das famílias atendidas pelos serviços públicos.

Isabelle também apontou que espaços que deveriam funcionar como redes de apoio, como família, escola e comunidade, podem, em determinadas situações, tornar-se cenários de violação de direitos. Nesse contexto, defendeu o fortalecimento de políticas públicas universais e intersetoriais e explicou que a proteção integral não é responsabilidade exclusiva das famílias, mas envolve também o Estado e todo o Sistema de Garantia de Direitos.

A programação da 26ª edição continua nos dias 17, 24 e 31 de agosto, ampliando o debate sobre prevenção, atendimento e atuação da rede de proteção. Ao longo das quatro semanas, a proposta é reunir diferentes perspectivas e áreas de conhecimento para fortalecer a capacidade dos profissionais de reconhecer, acolher e agir diante das situações de violência.