O Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) promoveu, em 5/8, o IV Seminário de Produção de Vida no Contexto Hospitalar Neonatal e Pediátrico, no Anfiteatro A do Centro de Estudos Olinto de Oliveira (CEOO).
Realizado anualmente em celebração ao Dia da Infância, comemorado em 24 de agosto, o seminário teve como eixo central, nesta edição, o cuidado como produtor de vida no contexto hospitalar neonatal e pediátrico. A programação também abordou diferentes saberes e práticas relacionados ao cotidiano de crianças hospitalizadas, considerando aspectos como desenvolvimento, participação, vínculos, autonomia e qualidade de vida.
A mesa de abertura foi composta por profissionais do IFF/Fiocruz: o diretor, Antônio Meirelles; a coordenadora de Atenção à Saúde, Patrícia Marques; e a responsável técnica da Terapia Ocupacional, Natália Molleri.
Mesa de abertura (Foto: Bruno Guimarães)
Iniciando a mesa, Natália Molleri destacou que o seminário reúne profissionais comprometidos com a qualificação do cuidado de crianças e famílias por meio da ciência, da prática clínica e do trabalho interdisciplinar. Ela ressaltou que, embora a infância continue existindo durante a hospitalização, esse contexto exige um olhar atento para garantir desenvolvimento, participação, vínculos, autonomia e qualidade de vida. “Ainda que a infância aconteça entre monitores, incubadoras e procedimentos, ela continua sendo uma expressão de vida. Um jeito de ser criança”.
Na sequência, Patrícia Marques frisou a consolidação do seminário como parte da identidade institucional e defendeu uma concepção ampliada de cuidado, que contemple vínculo, pertencimento, autonomia e garantia de direitos. Segundo ela, apesar dos avanços tecnológicos na saúde, o encontro entre pessoas permanece fundamental para o cuidado, assim como a participação das famílias e a atuação interdisciplinar. “O seminário nos convida a refletir sobre algo que nenhuma tecnologia substitui, que é o encontro entre pessoas”.
Encerrando a abertura, o diretor do Instituto, Antônio Meirelles, falou sobre a importância da Terapia Ocupacional e da integração entre diferentes categorias profissionais. “Os saberes e as informações se somam e a gente constrói coletivamente o conhecimento que cuida, que propicia o cuidado e a integração dessas famílias”, afirmou.
Na primeira mesa do seminário, intitulada “A importância do cuidado com as famílias de um bebê em seu início de vida”, a psicóloga do IFF/Fiocruz, Ana Paula Manzani, abordou a preservação da relação entre pais e recém-nascidos durante a hospitalização. A partir da perspectiva de que um bebê não existe de forma isolada, ela ressaltou que a internação em uma unidade neonatal pode interromper ou dificultar as primeiras interações entre a família e a criança. Nesse contexto, cabe à equipe favorecer a aproximação e autorizar simbolicamente os pais a exercerem seu papel de cuidadores. “É importante que ele possa continuar sendo filho daqueles pais”.
A terapeuta ocupacional do IFF/Fiocruz, Lia Gomes, discutiu a influência da participação dos pais no cuidado e no desenvolvimento dos recém-nascidos. De acordo com ela, a interação entre mãe, pai e bebê contribui para desfechos relacionados ao desenvolvimento social e cognitivo, enquanto o contato pele a pele, o toque, o cheiro e a voz dos pais ajudam a organizar e acalmar a criança. Lia também enfatizou que participar de atividades como trocar fraldas, dar banho e cantar para o bebê contribui para que os pais se reconheçam nesse papel.
Concluindo, a terapeuta ocupacional do IFF/Fiocruz, Natália Molleri, explicou que a permanência prolongada na unidade neonatal pode dificultar o exercício dos papéis ocupacionais dos pais, especialmente diante das barreiras impostas pelos equipamentos e pela própria dinâmica hospitalar. Para ela, a Terapia Ocupacional deve atuar para que os familiares deixem de ser espectadores e se tornem participantes efetivos do cuidado, aprendendo a reconhecer os sinais e as particularidades do bebê. Natália também ressaltou a necessidade de acolher e instrumentalizar as famílias, além de cuidar dos próprios profissionais, para que o ambiente hospitalar favoreça a produção de cuidado e de vida.
Palestrantes (Foto: Bruno Guimarães)
A segunda mesa, denominada “Possibilidades de intervenção com pacientes considerados graves”, foi moderada pela terapeuta ocupacional residente do IFF/Fiocruz Caroline Costa, e propôs uma reflexão sobre o cuidado de crianças e adolescentes em condições clínicas complexas para além da cura e da reabilitação. A discussão buscou abordar possibilidades de intervenção que considerem desejos, valores, subjetividades e qualidade de vida, mesmo diante de situações de instabilidade. “A proposta é a gente pensar o cuidado em uma perspectiva ampla, que reconheça a pessoa para além da doença”, disse Caroline.
A enfermeira da Unidade de Pacientes Graves (UPG) do IFF/Fiocruz, Soraya Cardoso, destacou a transformação das práticas de cuidado ao longo de seus anos de atuação em terapia intensiva pediátrica, especialmente com a ampliação do espaço para diferentes categorias profissionais. Ela apontou uma mudança no padrão assistencial, que passou de um modelo centrado na doença para uma perspectiva centrada na criança e, atualmente, na criança e na família.
O terapeuta ocupacional do Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira (IPPMG), Higor Alvarenga, apresentou a relação entre a complexidade clínica e o cotidiano das crianças hospitalizadas. Ele ressaltou que a gravidade pode reorganizar profundamente a rotina, que passa a ser marcada por exames, procedimentos e monitorização, mas não elimina interesses, preferências, vínculos e necessidades de desenvolvimento. Para Higor, as ocupações devem integrar o cuidado desde o início da hospitalização, respeitando os limites clínicos e adaptando as intervenções às condições de cada paciente.
A fonoaudióloga do IFF/Fiocruz, Bruna Germano, citou as possibilidades de atuação da Fonoaudiologia junto a pacientes graves, destacando a necessidade de avaliar individualmente aspectos como estabilidade clínica, condição respiratória, estado neurológico, risco nutricional e possibilidade de disfagia antes de iniciar uma intervenção. Entre as estratégias, deu exemplos como estímulos, sucção não nutritiva, manejo da saliva, posicionamento, introdução segura da alimentação por via oral, adequação de utensílios e treinamento dos cuidadores. Para Bruna, o resultado do trabalho não se resume à retomada da alimentação oral. “Sucesso é quando a gente consegue reduzir o número de aspirações, evita a pneumonia, diminui a aversão alimentar, favorece a qualidade de vida e, principalmente, humaniza esse cuidado”, explicou.
Dando seguimento ao evento, a coordenadora do Serviço de Terapia Ocupacional do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (ICr-HCFMUSP), Aide Mitie Kudo, abordou, na videoconferência “Gestão em Saúde no Contexto Hospitalar”, a gestão da saúde como uma ocupação e sua importância para a autonomia e a participação de crianças e adolescentes com condições crônicas. A apresentação teve como referência a quarta edição do Occupational Therapy Practice Framework, estudo publicado em 2020, que passou a considerar a gestão da saúde como uma categoria específica das ocupações humanas.
A mesa “Cuidados paliativos no ambiente hospitalar” reuniu a terapeuta ocupacional e docente da Faculdade de Medicina da UFRJ, Olivia Agostini; a fisioterapeuta do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE), Erika Marenco; a enfermeira da Comissão de Cuidados Paliativos do Instituto Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), Débora Adame; e a psicóloga do Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira (IPPMG/UFRJ), Lanna Cestari. Foram apresentados os desafios da assistência a crianças e adolescentes com condições crônicas complexas e em cuidados paliativos, destacando a importância de uma abordagem multiprofissional que considere as dimensões clínicas, emocionais, sociais e familiares do cuidado.
Entre os temas discutidos estiveram a comunicação com a criança e a família, a tomada de decisão compartilhada, a proporcionalidade terapêutica, o acompanhamento do luto e a preservação de atividades significativas durante a hospitalização. As participantes também ressaltaram a importância do brincar, da convivência e da construção de experiências de vida possíveis no ambiente hospitalar como estratégias de cuidado, expressão e promoção da qualidade de vida.
Encerrando o evento, a psicóloga, chefe de gabinete da Direção do IFF/Fiocruz e coordenadora do projeto Cuidadoria de Mães, Kátia Moss, falou sobre a profissionalização do cuidado voltado para mulheres que acompanham crianças e adolescentes em internações prolongadas no Instituto. Katia destacou a importância de reconhecer o cuidado como trabalho e discutir as desigualdades de gênero que atravessam essa atividade. De acordo com ela, a chamada “economia do cuidado” envolve tanto atividades remuneradas quanto não remuneradas e possui custos que nem sempre são visibilizados, como tempo, dinheiro e oportunidades profissionais e pessoais.
Durante a apresentação, Kátia mostrou algumas das oficinas oferecidas pelo Cuidadoria de Mães, entre elas design de sobrancelhas, cuidado digital, trancista, maquiagem, massagem e reparos elétricos, como possibilidades de aprendizado, autonomia e profissionalização para essas mulheres.



