No contexto do Dia Nacional de Redução da Mortalidade Materna, celebrado em 28 de maio, o Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), por meio da Área de Atenção Clínico-cirúrgica à Gestante, promoveu, em 2 de junho, um evento para discutir o papel do Instituto na redução da mortalidade materna no Brasil. A programação reuniu profissionais e especialistas de diferentes instituições para debater estratégias de gestão, qualificação da assistência e vigilância em saúde voltadas à prevenção de mortes maternas evitáveis.
Na abertura, a gestora da Área de Atenção Clínico-cirúrgica à Gestante do IFF/Fiocruz, Aricele Ferreira, ressaltou a importância de ampliar o alcance das ações já existentes para que elas cheguem efetivamente às mulheres que mais necessitam de cuidados. Segundo ela, embora diversas iniciativas tenham sido implementadas nos últimos anos, ainda há desafios relacionados às desigualdades regionais e ao acesso aos serviços de saúde. “Nós precisamos nos reinventar, buscar novas estratégias a cada dia, para que realmente a gente possa fazer diferença na vida de tantas mulheres, na vida de tantas crianças, para que os desfechos trágicos não se perpetuem”, afirmou.
Em seguida, o diretor do Centro de Estudos Olinto de Oliveira (CEOO), José Augusto Alves de Britto, destacou a relevância do tema e lembrou que a mortalidade materna continua sendo um importante indicador das condições de saúde da população. Ele observou que, apesar da redução registrada após os índices elevados observados durante a pandemia de Covid-19, os números ainda permanecem distantes do cenário considerado ideal.
Fechando a mesa de abertura, o diretor do IFF/Fiocruz, Antônio Flávio Meirelles, enfatizou o papel estratégico do Instituto na Coordenação de Ações Nacionais e de Cooperação voltadas à redução da mortalidade materna. Entre as iniciativas em andamento, citou a parceria com a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), que amplia a atuação do Instituto junto aos hospitais universitários com maternidade em todo o país.
O diretor também lembrou o reconhecimento do trabalho desenvolvido pelo IFF/Fiocruz no âmbito das metas da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, reforçando o compromisso institucional com a redução da razão de mortalidade materna. “Eu tenho certeza, vendo a programação e o trabalho da equipe da Área de Atenção Clínico-cirúrgica à Gestante, que teremos um futuro muito promissor com essas ações que são feitas para o povo brasileiro e para fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS)”.
Mesa de abertura: José Augusto Alves de Britto, Antônio Meirelles e Aricele Ferreira (Foto: Bruno Guimarães)
Atuação nacional e fortalecimento das redes de cuidado
A primeira mesa do evento abordou a atuação nacional do IFF/Fiocruz na redução da mortalidade materna. A sanitarista Cynthia Magluta apresentou as principais estratégias lideradas pelo Instituto por meio da Coordenação de Ações Nacionais e de Cooperação.
Durante sua exposição, frisou a importância de acreditar na possibilidade de redução das mortes maternas e de compreender o papel de cada profissional nesse processo. Segundo ela, a atuação do Instituto está fundamentada em sua missão de assessorar o Ministério da Saúde, produzir e difundir conhecimento, formar profissionais para o SUS e articular redes colaborativas em todo o país.
Cynthia explicou que as ações desenvolvidas se organizam em três eixos norteadores: fortalecimento da capacidade de gestão e planejamento, qualificação das práticas clínicas e monitoramento e avaliação de indicadores de gestão e do cuidado. Atualmente, o Instituto mantém interlocução permanente com as 27 unidades federativas, apoiando a implementação de políticas públicas, a definição de fluxos assistenciais e a qualificação dos serviços.
Entre as iniciativas apresentadas estão o Portal de Boas Práticas em Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente, os cursos de educação permanente, o Sistema de Apoio à Decisão Clínica (SADEC), o Observatório Obstétrico Brasileiro e sistemas de monitoramento voltados ao acompanhamento da assistência obstétrica e neonatal. Outro destaque foi a incorporação de estratégias voltadas ao enfrentamento das desigualdades raciais na saúde materna, considerando os impactos do racismo estrutural nos indicadores de morbimortalidade materna.
Cynthia Magluta (Foto: Bruno Guimarães)
Dez passos para qualificar o cuidado obstétrico
A enfermeira obstétrica do Hospital Sofia Feldman, Danúbia Barbosa, apresentou a estratégia dos “10 Passos do Cuidado Obstétrico para Redução da Morbimortalidade Materna”, iniciativa coordenada pelo IFF/Fiocruz em parceria com diferentes instituições.
Segundo a enfermeira, a proposta busca fortalecer a integração entre atenção primária, ambulatórios especializados e maternidades, promovendo a qualificação da assistência ao pré-natal, parto, nascimento e puerpério.
Danúbia destacou que a nova versão da estratégia amplia o foco para a Atenção Primária à Saúde, reconhecendo seu papel fundamental na prevenção de complicações e na identificação precoce de situações de risco. Entre os temas abordados estão a captação precoce das gestantes, a garantia de um pré-natal qualificado, a vigilância do puerpério, a saúde reprodutiva, a prevenção da primeira cesariana e o fortalecimento dos fluxos de referência e contrarreferência.
A palestrante também ressaltou a criação do chamado “Passo Zero”, voltado ao enfrentamento do racismo na assistência obstétrica. A proposta visa incorporar uma perspectiva antirracista ao cuidado, considerando que as mulheres negras e indígenas apresentam maiores riscos de adoecimento e morte relacionados à gestação, parto e puerpério. Além disso, os 10 Passos priorizam ações relacionadas às principais causas de morte materna no país, como hipertensão, infecções e hemorragias, bem como a capacitação permanente dos profissionais de saúde para o reconhecimento precoce de sinais de gravidade.
Danúbia Barbosa (Foto: Bruno Guimarães)
Vigilância e monitoramento como ferramentas de prevenção
Encerrando a mesa, o ginecologista e obstetra Marcos Dias apresentou a palestra “Observatório Obstétrico Brasileiro – A importância da vigilância do óbito como estratégia para a redução da mortalidade materna”. Marcos frisou que a morte materna é um importante indicador da qualidade da assistência e das desigualdades sociais, raciais e territoriais existentes no país. Segundo ele, mais de 90% das mortes maternas são consideradas evitáveis, o que reforça a necessidade de aperfeiçoar continuamente os sistemas de cuidado.
Marcos apresentou dados que mostram a redução dos índices de mortalidade materna após os picos observados durante a pandemia, mas enfatizou que o Brasil ainda enfrenta desafios importantes, especialmente entre mulheres negras, indígenas e com menor escolaridade.
Durante a apresentação, explicou o funcionamento da vigilância do óbito materno, que envolve identificação, investigação, análise dos casos, elaboração de recomendações e monitoramento das respostas adotadas pelos serviços de saúde.
O palestrante também ressaltou a importância da vigilância da morbidade materna grave, conhecida internacionalmente como near miss materno, situação em que a mulher sobrevive a uma complicação potencialmente fatal. Segundo ele, o estudo desses casos permite identificar falhas e acertos na assistência, contribuindo para o aprimoramento das práticas de cuidado.
Marcos Dias (Foto: Bruno Guimarães)
A programação foi concluída com a mesa “Integração obstetrícia e terapia intensiva na assistência à Morbidade Materna Grave”, que reuniu a ginecologista e obstetra da Clínica Obstétrica do Hospital das Clínicas (HC/FMUSP), Fernanda Spadotto, a gestora da Área de Atenção Clínico-cirúrgica à Gestante e obstetra do IFF/Fiocruz, Giselle Maria e o gestor do Núcleo Interno de Regulação do IFF/Fiocruz (NIR) do IFF/Fiocruz, Marcelo Guimarães Barbosa. Eles discutiram a articulação entre diferentes áreas assistenciais no cuidado às mulheres em situações clínicas complexas.
O evento foi encerrado com uma rodada de perguntas (Foto: Bruno Guimarães)



