Simpósio do IFF/Fiocruz debate construção de redes e cuidado compartilhado em saúde mental

 

O Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) realizou, em 27 de agosto, o simpósio Tecendo Redes em Saúde Mental: Integralidade e Cuidado Compartilhado no Hospital e com o Território. O encontro, realizado no Centro de Estudos Olinto de Oliveira, marcou o Dia do Psicólogo e reuniu profissionais de diferentes áreas para discutir experiências de cuidado compartilhado e a articulação entre hospital, serviços de saúde, famílias e território.

Participantes da mesa de abertura (Foto: Bruno Guimarães)

O diretor do Centro de Estudos, José Augusto Alves de Britto, deu as boas-vindas e destacou a importância de promover espaços de encontro, aprendizado e disseminação do conhecimento. Em seguida, durante a mesa de abertura, o diretor do IFF/Fiocruz, Antônio Flávio Meirelles, ressaltou a relevância da saúde mental e do trabalho multiprofissional, apontou os desafios atuais para a saúde e a ciência e defendeu o fortalecimento da informação científica.

“Para tecermos as redes e construirmos esse caminho da informação científica correta, da segurança para a população, para quem cuida, nós precisamos ter muita força e veemência na defesa dos valores da saúde, da ciência, da educação e da formação. Nós não podemos hesitar nesse momento”, decretou Tom Meirelles, que também apresentou avanços na ampliação da atuação do Instituto e comemorou a expansão do quadro de profissionais do IFF/Fiocruz.

A psicóloga e chefe de gabinete, Kátia Moss, utilizou a própria ideia de tecer como metáfora para refletir sobre o cuidado em rede. Para ela, a existência de serviços não garante, por si só, uma rede efetiva: “Uma rede não se constitui simplesmente pela existência dos seus pontos, mas sim pelas conexões que somos capazes de estabelecer entre eles. É justamente nesse espaço, entre um ponto e outro, um serviço e outro, um profissional e outro, o hospital e o território, que o cuidado pode se fragmentar ou, ao contrário, ganhar continuidade”.

A psiquiatra e gestora de saúde mental do Instituto, Lizete Dickstein, frisou que o simpósio nasceu da experiência cotidiana dos profissionais e do processo de construção da linha de cuidado em saúde mental.

“Esse evento está sendo muito importante porque ele foi fruto da experiência, do cotidiano das pessoas que vivem dentro do hospital, dos psicólogos que aqui estão, porque a linha de cuidados foi trazendo essa expansão e abarcando a necessidade de se fazer redes com o território. Eu acho que esse assunto, para nós todos, é muito importante em um momento em que a gente está crescendo e se expandindo”, afirmou Lizete.

Cuidado compartilhado e integralidade

Na sequência, a mesa Cuidado Compartilhado em Saúde Mental: Experiências e Articulações teve mediação da psicóloga da Coordenação Técnica de Saúde Mental da Área de Atenção Clínico-Cirúrgica à Mulher do IFF/Fiocruz, Denise Duarte Lopes. A primeira apresentação foi da também psicóloga da IPUB/UFRJ e Assessora de Educação Permanente do IFF/Fiocruz, Paula Cerqueira, com o tema Integralidade do Cuidado em Saúde Mental: O Hospital como Espaço de Construção de Redes.

Troca de experiências na mesa principal do evento (Foto: Bruno Guimarães)

Paula defendeu que a saúde mental não é responsabilidade exclusiva de uma categoria profissional e destacou a necessidade de construir redes centradas no usuário, considerando também os determinantes sociais da saúde. Ela também chamou atenção para a necessidade de superar redes fragmentadas, centradas exclusivamente em procedimentos, equipes ou setores, e fortalecer a articulação entre os diferentes profissionais e serviços.

“A gente pode falar de rede, mas nos interessa falar de um determinado tipo de rede que se sustenta por uma direção de trabalho, por um fundamento, por uma fundamentação teórica que precisa, por exemplo, começar como uma direção principal: centrar no paciente, no usuário. É a partir desse momento que a gente vai conseguir manejar o conjunto de estratégias e tecnologias de cuidado que vão precisar ser acionadas para que esse trabalho não se esgote e não se finde ali no ato do encontro”, enfatizou Paula.

Em seguida, a psicóloga e Responsável Técnica da Saúde Mental do IFF/Fiocruz, Alda Cardozo, apresentou a Linha de Cuidado Perinatal: Construindo Redes de Atenção Integral à Saúde Mental. A experiência apresentada busca acolher as mulheres desde a gestação, fortalecer vínculos, prevenir situações de maior sofrimento psíquico e construir uma rede interna e uma externa, em articulação com a atenção básica.

“O sofrimento comunica a demanda de laço com o outro, ainda que essa demanda possa ser desajeitada, como não raro acontece quando o sujeito está encharcado de angústia. No entanto, é esse discurso que convoca o psicólogo ao trabalho: o sofrimento humano. O psicólogo é o profissional que dará voz e vez à presença da dor psíquica para que o sujeito possa elaborar esse afeto e seguir adiante na vida”, frisou Alda.

Já a psicóloga e Coordenadora Geral do CAPSi CARIM/IPUB/UFRJ, Nathalia Sabbagh Armony, discutiu Do Encaminhamento ao Compartilhamento: O Território na Construção do Cuidado em Rede. A profissional destacou que o cuidado em saúde mental infantojuvenil precisa considerar a criança em seus contextos familiar, escolar, social e territorial, evitando reduzir situações complexas a diagnósticos individuais. Ela ressaltou ainda que a intersetorialidade é parte estrutural da atenção à infância, já que a vida das crianças ultrapassa as divisões entre os diferentes setores das políticas públicas.

“Não se trata de encaminhar, passar o caso, mas de compartilhar o cuidado, de construir juntos um projeto terapêutico singular que considere não apenas o sintoma, mas a vida da criança, sua família, sua escola, seu bairro, sua inserção. É um trabalho criativo, porque exige que cada profissional vá além do seu mandato e da sua expertise. É inventivo, porque não há um protocolo que dê conta da singularidade de cada situação. E é colaborativo, pois se baseia no diálogo e na construção comum”, enfatizou Nathalia.

Paula Cerqueira e Jéssica Ramos durante o Simpósio

Desospitalização e economia do cuidado

A Desospitalização de Crianças com Condições Crônicas Complexas: Necessidade de Articulação com as Redes de Atenção à Saúde foi abordada pelo pediatra da Unidade Intermediária (UI) do IFF/Fiocruz, José Luiz de Carvalho. Em sua fala, apontou a importância da articulação entre os serviços e do fortalecimento da comunicação entre profissionais, especialmente para garantir a continuidade do cuidado após a alta hospitalar.

“Quero ressaltar a importância da tecnologia leve na vida das pessoas que precisam de atendimento, que é isso que a gente está trazendo para a discussão hoje. E esse talvez seja um dos nossos maiores desafios enquanto formadores: como a gente ensina a se comunicar e a agir em rede", declarou José Luiz, chamando a atenção para a sobrecarga das famílias, a necessidade de apoio aos cuidadores e os desafios da transição do cuidado da adolescência para a vida adulta.

Encerrando a mesa de destaque do evento, a psicóloga e gestora da Rede de Atenção Psicossocial integrada ao Sistema Único de Saúde (RAPS/RJ), Jéssica Ramos, apresentou o tema O Exercício da Psicologia na Gestão do SUS: Compromisso Ético-Político na Produção do Cuidado Compartilhado.

A partir do debate sobre a economia do cuidado, Jéssica discutiu as desigualdades relacionadas a gênero, raça, classe e território e defendeu que o cuidado seja compreendido como responsabilidade coletiva: “Não pode continuar sendo compreendido como uma responsabilidade privada, individual e feminina. Cuidar é uma responsabilidade coletiva e isso tem tudo a ver com o projeto societário democrático do SUS. Da mesma forma, o cuidado não pode ser reduzido ao atendimento individual compartimentalizado no espaço formal da instituição. Cuidar é produzir rede, é articular serviços, é construir possibilidades, é reconhecer saberes, compartilhar responsabilidades, produzir autonomia”.

Ao fim, as diferentes apresentações convergiram para a importância de superar a fragmentação e fortalecer redes capazes de compartilhar responsabilidades e garantir continuidade ao cuidado. A proposta de tecer redes sintetizou o desafio colocado pelos participantes: construir conexões efetivas entre profissionais, serviços, famílias, usuários e territórios para que o cuidado em saúde mental seja cada vez mais integral, compartilhado e centrado nas pessoas.

Equipe de organização do Simpósio (Foto: Bruno Guimarães)