Segurança do paciente em pauta 

 

 

Aproximadamente 10% dos pacientes internados sofrem algum tipo de evento adverso. A metade das ocorrências poderia ser evitada. Esse número desfavorável é uma preocupação cada vez maior no universo hospitalar. Para debater as diversas questões que envolvem a segurança do paciente e como é possível inovar com soluções que nem sempre exigem altos investimentos, o Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) participou do II Seminário de Segurança do Paciente.

O evento, realizado nos dias 15 e 16 de setembro no Museu da Vida, em Manguinhos, foi promovido pelo Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), em parceria com as vice-presidências de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS) e Gestão e Desenvolvimento Institucional (VPGDI) da Fiocruz. Além de uma vasta programação que envolveu mesas redondas, palestras, rodas de conversas e a entrega do Prêmio de Inovação da Qualidade da Fiocruz, foi montada uma feira na parte externa do Museu para o compartilhamento das experiências exitosas das unidades participantes. No estande do IFF, foi apresentado o vídeo Samba da Higienização das Mãos, que concorreu, ano passado, a um prêmio da Associação de Profissionais em Controle de Infecções e Epidemiologia (Apic), principal entidade de controle de infecção hospitalar internacional. Profissionais do Instituto se revezaram no espaço para tirar dúvidas e ensinar a técnica correta da higienização.

O diretor do IFF, Carlos Maciel, destacou na mesa de abertura do Seminário que por contar com dois institutos nacionais (INI e IFF), a Fiocruz deve ser uma referência no que compete à segurança do paciente. “A preocupação com os eventos adversos é diária e constante e temos que trabalhar para diminuir isso cada vez mais, levando toda a expertise adquirida ao longo dos anos por esses dois Institutos para outros cantos do Brasil”, afirmou ele durante a solenidade que reuniu também o vice-presidente de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fiocruz, Valcler Rangel, a vice-diretora de Qualidade e Informação do INI, Marilia Santini, e o coordenador do Núcleo de Segurança do Paciente do INI e organizador do evento, Eduardo Corsino.

Na ocasião, Valcler Rangel, lembrou que a qualidade do cuidado e da segurança do paciente tem que ser uma questão central de todo o sistema de saúde brasileiro, seja público ou privado, principalmente nesse momento crítico para as políticas públicas de saúde aliado à falta de investimento. “Isso amplia, ainda mais, o papel da Fiocruz como instituição exportadora das experiências aqui acumuladas para outros locais. Temos que ter em mente que essa crise é um combustível para aumentar nossa capacidade em produzir conhecimentos e inovações para a segurança do paciente”, enfatizou.

As experiências do INI, do Centro Colaborador para Qualidade e Segurança do Paciente (Proqualis), da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) e do IFF foram o foco da primeira mesa redonda,  Desafios para Formação de Comitê Assessor de Qualidade e Segurança do Paciente da Fiocruz. Representando o Instituto, a enfermeira da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH), Adriana Reis, ressaltou os desafios na consolidação do Comitê, em que a formação em saúde, a sensibilização profissional e a cultura de segurança e de prevenção a incidentes em qualquer área devem ser pontos fundamentais a serem abordados e incluídos nas grades curriculares dos cursos ofertados pela Fundação.

A cultura organizacional voltada para a segurança do paciente e iniciativas inovadoras  ganharam espaço no segundo dia do evento. Já no início da agenda, durante a mesa Inovação e Segurança Hospitalar, a vice-diretora de Qualidade e Informação do INI, Marilia Santini, destacou a importância do gestor neste processo: ”O envolvimento direto da Direção da instituição, aliado a um bom planejamento estratégico, são peças vitais para estabelecer essa cultura institucional”, afirmou. Para o vice-diretor de Atenção à Saúde do IFF, Carlos Eduardo Figueiredo, o emponderamento dos pacientes e de suas famílias, para que possam cobrar das equipes de saúde condutas adequadas, também é fundamental.

Carlos Eduardo destacou, ainda, a importância do fomento a pesquisas que gerem impacto para a sociedade brasileira, a partir de uma parceria maior com as universidades públicas, de forma a ampliar a troca de conhecimento. A exitosa experiência do IFF com a iniciativa do Banco de Leite Humano (BLH), que revolucionou e alavancou a política de amamentação brasileira, foi citada como exemplo. “Essa foi uma inovação nossa, disseminada por todo o país e que chegou ao exterior. Hoje, o mundo conta com mais de 300 BLHs. Essa experiência é uma prova clara de uma política efetiva de alto impacto e que reduz a mortalidade infantil”, informou.

Exemplo de inovação que ilustra bem a cultura de segurança do paciente, o lançamento do curta-metragem Um Olhar para Segurança foi um dos destaques do II Seminário. O vídeo, narra a história de uma residente de enfermagem, atormentada por sua consciência – encenada na trama pelo coordenador do Núcleo de Segurança do Paciente do IFF, Carlos Renato Alves -  em relação às responsabilidades de sua profissão, que passa por um evento trágico no trabalho.

Ainda na temática das inovações em prol da qualidade do cuidado, tanto o INI quanto o IFF tiveram a oportunidade de compartilhar iniciativas que estão sendo implementadas. Apresentado pelos profissionais do IFF, Carlos Renato Alves e Fernanda Maia, o trabalho  Prevenção de Quedas em Pediatria busca estabelecer uma padronização para os berços hospitalares, algo inexistente do país e que vai de encontro à padronização em uso nos berços domiciliares. Segundo os autores, utilizar essa estratégia no desenvolvimento de um mobiliário seguro, sem o esquecimento de sua ergonomia, pode reduzir muito a queda de crianças. Números subnotificados revelam que as quedas em pacientes hospitalares produzem danos em 30 a 50% dos casos, sendo que, desse total, de 6 a 44% podem ser graves. No caso específico de prontuários infantis, os autores analisaram 200 em todo o país e 80% relataram alguma queda sofrida pela criança.

Já o SegPac, nome do aplicativo lançado pelo Núcleo de Segurança do Paciente do INI, auxilia o profissional de saúde no desenvolvimento de metas de segurança do paciente através de lembretes adicionados pelo próprio usuário. No momento, é possível utilizar a opção ‘Prevenção de Úlceras’, na qual o usuário inclui o nome do paciente, o leito onde ele está e a posição que deverá ser virada (decúbitos laterais esquerdo e direito, ou dorsal). Novas funcionalidades serão implementadas, com as atualizações, para as seguintes metas: Identificação do Paciente; Comunicação Efetiva; Medicamento Seguro; Cirurgia Segura; Lavagem de Mãos; Risco de Queda; e Gestão de Risco.