Projeto “Entre Nós” aposta no diálogo e na empatia para fortalecer o cuidado no IFF/Fiocruz

 

O Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) realizou, em 28/4, o evento de lançamento do Projeto Entre “Nós” - Criando Conexões para Integralidade do Cuidado. A iniciativa, da Área de Atenção Clínica à Criança e ao Adolescente em parceria com o Núcleo de Saúde do Trabalhador (NUST-IFF), tem foco no fortalecimento de competências socioemocionais, na melhoria da comunicação e das relações interpessoais entre os profissionais de saúde. A proposta busca promover um ambiente de trabalho mais colaborativo, com impacto direto na qualidade da assistência prestada a crianças e adolescentes.

Na abertura, a diretora substituta e chefe de Gabinete do IFF/Fiocruz, Mariana Setúbal, destacou o projeto como uma tecnologia leve de cuidado, voltada à criação de espaços de escuta e reflexão no ambiente hospitalar. Para ela, a iniciativa contribui para quebrar a rotina automatizada e possibilita que os profissionais analisem seus processos de trabalho, especialmente no que diz respeito à comunicação, considerada um dos principais desafios nas relações em saúde. “Falar ‘entre nós’ é criar condições para o diálogo e para a construção de laços, respeitando as diferenças e buscando soluções coletivas”, afirmou.

A médica do trabalho do NUST-IFF, Elaine Yuan, ressaltou que o cuidado com a saúde do trabalhador não se faz de forma isolada, mas a partir da participação coletiva. Ela enfatizou que o adoecimento das equipes está diretamente relacionado ao processo de trabalho e às relações interpessoais. “É fundamental compreender o que está por trás do adoecimento, e isso passa pelas dinâmicas de trabalho e pela forma como nos relacionamos”, pontuou.

Elaine Yuan (Foto: Juliana Brum)

A gestora da Área de Atenção Clínica à Criança e ao Adolescente, Thaize Sobreiro, explicou que o projeto surgiu a partir de desafios observados na gestão da Área, como conflitos entre equipes, falhas de comunicação e aumento do estresse, fatores que impactavam diretamente o cuidado ao paciente. “Muitas vezes, pequenas situações ganham grandes proporções e dificultam aquilo que é o nosso principal objetivo: cuidar”, afirmou.

Thaize Sobreiro (Foto: Bruno Guimarães)

Também gestora da área, Fernanda Neves reforçou que o projeto é de longo prazo e não pretende oferecer soluções imediatas, mas sim promover mudanças progressivas no ambiente de trabalho. Entre os principais eixos estão o fortalecimento da comunicação, o desenvolvimento da empatia, o estímulo ao sentimento de pertencimento e o incentivo ao trabalho colaborativo. “Problemas de comunicação geram conflitos, estresse e até eventos adversos. Melhorar esse processo é essencial para a segurança do paciente e para a saúde dos trabalhadores”, destacou.

Fernanda Neves (Foto: Bruno Guimarães)

Como parte das primeiras ações, as psicólogas do NUST-IFF, Alessandra Rodrigues e Josiane Pessanha, apresentaram os resultados de uma atividade realizada em dezembro de 2025 com profissionais de diferentes equipes. A dinâmica envolveu a troca de percepções sobre pontos fortes e aspectos a serem melhorados. Entre as principais potencialidades identificadas estão a qualidade da assistência, o cuidado humanizado e o comprometimento das equipes. Por outro lado, a comunicação entre unidades, a integração e as relações interpessoais apareceram como os principais desafios.

Alessandra Rodrigues e Josiane Pessanha (Foto: Juliana Brum)

Outro dado relevante apontado pela pesquisa foi o desconhecimento, por parte de alguns profissionais, sobre o funcionamento de outras unidades, o que evidencia fragilidades na integração. “Se eu não conheço o trabalho do outro, eu não compreendo suas dificuldades nem suas potencialidades, o que pode gerar conflitos e interpretações equivocadas”, explicou Josiane.

O projeto prevê a realização de rodas de conversa, oficinas, vivências e espaços de reconhecimento profissional, com o objetivo de estimular o diálogo e fortalecer vínculos entre as equipes. A iniciativa aposta na construção coletiva como caminho para transformar o cotidiano de trabalho e promover um ambiente mais saudável.

Após as apresentações, as organizadoras realizaram uma dinâmica do “telefone sem fio”, com grande envolvimento dos presentes e um breve debate sobre a importância da boa comunicação e das estratégias para torná-la mais efetiva.

No encerramento do evento, a médica de família e comunidade Márcia CL Santos conduziu uma palestra sobre comunicação não violenta, destacando que, embora o tema já seja conhecido por muitos profissionais, sua aplicação prática ainda representa um desafio no cotidiano da saúde. Márcia chamou atenção para a alta incidência de violência enfrentada por trabalhadores da área, não apenas por pacientes, mas também nas relações entre colegas, ressaltando que atitudes sutis, como gestos e expressões, também podem ser formas de violência.

Ao longo da apresentação, defendeu a responsabilidade individual na gestão das emoções e na construção de ambientes mais saudáveis, propondo a adoção de estratégias baseadas em observação, identificação de sentimentos, reconhecimento de necessidades e formulação de pedidos claros. Para encerrar, fez uma dinâmica sobre como agir de forma não violenta em situações difíceis e comuns no ambiente hospitalar.

Profissionais reunidos ao final do evento (Foto: Bruno Guimarães)