A maternidade é um momento de muita emoção para os pais e preocupação quanto ao futuro do filho. O surgimento do vírus zika e o crescimento expressivo do número de casos de bebês com microcefalia fizeram com que aumentassem as dúvidas e a apreensão sobre riscos e o combate à doença. Com o objetivo de esclarecer alguns questionamentos, o ginecologista, obstetra e especialista em medicina fetal do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) José Paulo Pereira Júnior respondeu as principais perguntas sobre o tema, como métodos de prevenção e características das infecções.
Quais são os métodos de prevenção contra o mosquito?
É muito importante lembrar as recomendações gerais contra o aedes aegypti, mosquito que transmite o vírus da zika, dengue e chikungunya. A primeira atitude deve ser o controle do vetor em sua casa, bairro e cidade. Além disso, a gente sabe que o mosquito tem predileção por voos de manhã e no fim da tarde e que o aedes aegypti não gosta de frio e muito vento. Então, uso de barreiras mecânicas, como telar a casa, usar mosquiteiros na cama do bebê e matar mosquitos com raquetes elétricas, são importantes. Com relação aos cuidados pessoais, principalmente no caso das grávidas, é o uso dos repelentes certificados pela Anvisa.
Qual é o repelente indicado?
Os repelentes indicados são aqueles certificados pela Anvisa, informado no rótulo do produto. O uso deve ser feito no intervalo do período da sua ação. Por exemplo, se o rótulo do repelente informa que ele tem uma duração de ação de quarto horas, não é preciso usá-lo o tempo.
O recém-nascido pode usar repelente?
Volta-se para a recomendação anterior: deve-se ler os rótulos e ver qual é a recomendação. Caso não seja recomendado o uso em bebês, não deve-se usar. O que temos que enfatizar são aquelas medidas de controle do mosquito, como a utilização de tela nos berços e carrinhos.
A microcefalia é facilmente detectada na ultrassonografia?
A microcefalia é mais fácil de ser detectada após 30 semanas de idade gestacional. Quando existe alguma suspeita em exame de ultrassonografia, recomendamos a repetição deste exame entre duas e três semanas para a confirmação.
Divulgou-se recentemente o fato de que foi encontrado o vírus ativo na saliva e urina. O que significa isso?
Uma pesquisa inicial mostrou que era possível a identificação de fragmentos do vírus, com potencial de causar infecção na saliva e na urina. Esses fragmentos foram colocados em placas dentro do laboratório, em condições controladas, e mostraram efeitos de destruir células ou de parcialmente prejudicar o andamento das mesmas. No entanto, serão feitas mais pesquisas para verificar se há alguma prova conclusiva de que esse vírus ativo pode causar o mesmo efeito no mundo real.
É indicado o uso de preservativo caso o homem tenha contraído o vírus ou apresentar os sintomas?
No momento, o Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC) recomenda que caso o marido da gestante tenha viajado para lugares com potencial de infecção pelo vírus zika, o casal use preservativo quando tiver relação sexual na volta. Mas o vírus, embora tenha sido descrito pela primeira vez em 2007, é uma doença muito nova ainda. Apesar de o volume de informações vindas de todo o Brasil e de outros países ter aumentado consideravelmente - o que nos ajuda a melhorar esse conhecimento -, ainda temos muito mais perguntas do que respostas nesse momento. O impacto do zika na população brasileira fez com que o Ministério da Saúde junto com as organizações Pan-americana da Saúde (Opas) e Mundial da Saúde (OMS) decretassem estado de emergência epidemiológica mundial.
O risco do bebê contrair a microcefalia pode acontecer depois do primeiro trimestre da gravidez?
Todas as infecções preocupam a nós obstetras, principalmente quando se fala em vírus, bactérias e alguns parasitas. Essas infecções, na maioria das vezes, tendem a ser piores quando acontece nos três primeiros meses da gravidez porque é nesse período que o cérebro e os principais órgãos do bebê se formam e ocorrem a multiplicação das células numa velocidade muito rápida. Além disso, a capacidade da placenta bloquear esse vírus é menor no primeiro trimestre do que no segundo e terceiro, então o melhor é evitar essa infecção no início. Por isso, como não temos uma reposta concreta para essa pergunta ainda, é importante que as gestantes, além de todos os cuidados no início da gravidez, tenham também a preocupação durante o segundo e terceiro trimestre.
Existe o risco de uma criança ser infectada pelo vírus zika e desenvolver algum problema neurológico?
A microcefalia pode ter repercussões no futuro do ponto de vista neurológico, mas nós sabemos muito pouco sobre o vírus. Estamos falando de 90 a 100 dias e, do ponto de vista da saúde, é muito pouco tempo. No momento, estamos trabalhando com protocolos, vindos da Secretaria de Vigilância de Saúde do Ministério da Saúde, já estabelecidos para esse tipo de atendimento.
Uma criança corre risco de ter algum problema neurológico se tiver zika?
Com o conhecimento que a gente tem no momento, a princípio, a criança teria um risco parecido com o adulto. A recomendação é que, assim como as grávidas, crianças, adultos e idosos devem evitar o contato com o mosquito. Caso uma pessoa que conviva com uma gestante pegue a doença, o mosquito pode picar a pessoa infectada, pegar o vírus e transmiti-lo para a grávida, apesar de todos os cuidados que tem em casa.
Quanto tempo uma pessoa fica com o vírus no sangue?
O período em que o vírus circula no sangue de uma pessoa infectada, que permite a transmissão pelo mosquito para outra pessoa, é de sete dias. Neste tempo, é recomendado que a pessoa fique isolada por um período de uma a duas semanas para não haver risco de transmissão.
Quais são os sintomas da zika?
Há um período inicial de cinco a sete dias sem nenhum sintoma. Depois, começa a apresentar lesões na pele e febre baixa. Em muitos casos, no entanto, a pessoa com o vírus não apresenta nenhum sintoma.
Se a mulher tiver o vírus zika e anos depois ficar grávida, tem algum risco do bebê ter microcefalia?
Até o presente momento, frente ao que sabemos sobre as demais infecções virais, após uma pessoa contrair uma doença viral e se curar, vai produzir anticorpos contra aquela doença que irá protegê-la pelo resto da vida. Assim, se ela engravidar depois de curada e novamente for mordida por um mosquito infectado pela zika, ela teria a capacidade de destruir imediatamente este vírus, não permitindo uma nova infecção.
Por que a síndrome de guillain-barre, que era rara, está se tornando rotina?
De todas as informações que temos do surto que aconteceu na Oceania, em 2013 e 2014, o que ficou foram algumas indicações do aparecimento dessa doença rara, que é do tipo autoimune: destrói uma parte do envoltório dos neurônios, o que dificulta que os impulsos nervosos cheguem bem até o cérebro. Alguma interação provavelmente entre o vírus zika e o sistema imunológico das pessoas favorece o aparecimento dessa síndrome, que de maneira satisfatória evolui bem na maioria dos casos, o problema são os 10% que não evoluem bem.
O zika vírus pode passar para o bebê durante a amamentação?
A OMS junto com a Fiocruz e o CDC, nos Estados Unidos, até o presente momento, frente a tudo que há de conhecimento, declara que não existe nenhuma evidência que suporte parar de amamentar nesse momento, e a gente aconselha que as mães devam amamentar os seus filhos. A gente sabe que a amamentação em todos os países do mundo é muito importante. O leite materno não só protege o recém-nascido de várias doenças como também melhora o desenvolvimento desses recém-nascidos. Além disso, a amamentação estreita muito a relação entre mãe e filho.
A vitamina B pode repelir o mosquito?
Não existe evidência científica de que o consumo de vitamina B proteja a pessoa de ser picada pelo vetor.
Quem já pegou zika e não apresenta mais os sintomas da doença pode passar para outras pessoas pela saliva ou ato sexual?
Até o momento, o que sabemos é que o período que o vírus circula no sangue ou na urina é de aproximadamente 16 dias. Por segurança, aconselhamos que a pessoa se isole por mais uma semana. Após 21 dias, a possibilidade de encontrarmos partículas virais no sangue ou na urina é pouco provável.
Os anticorpos da mãe podem passar pelo leite materno, fazendo com que o filho também fique imune ao vírus?
Os anticorpos que as mães transmitem para seus filhos perdem a sua eficiência com o tempo, motivo pelo qual sugerimos a amamentação restrita por seis meses e com complemento alimentar até os 2 anos. A passagem de anticorpos da mãe para o recém-nascido protege a criança, mas não garante imunidade para o resto da vida. É necessário que a criança receba as vacinas adequadas ou entre em contato com os micro-organismos para que ela, a criança, passe a fabricar seus próprios anticorpos para o resto da vida.
O homem também pode fazer os testes disponíveis para detectar o vírus zika?
Atualmente, só estamos colhendo o exame de PCR para Zika quando a pessoa, homem ou mulher, apresenta sintomas da doença. Este serve para identificar partículas virais no sangue ou urina até 16 dias após o início dos sintomas. Ainda não existe um teste laboratorial, as sorologias, para saber quem já teve ou não teve a doença por Zika, como existe para rubéola ou toxoplasmose.
A zika tem mais sintomas em pessoas com baixa imunidade, por isso acometem mais mulheres grávidas e pessoas com sistema imune depressivo?
A zika acomete qualquer pessoa. E pode ou não ser sintomática. Por ser uma doença nova, pouco sabemos, mas sugerimos sempre, assim como para qualquer infecção viral ou bacteriana, que pessoas naturalmente mais suscetíveis às complicações, como crianças, grávidas, idosos e imuno-deprimidos (em tratamento de câncer, por exemplo), evitem a infecção com medidas preventivas. E em casos de suspeita, procurem serviço médico especializado para orientação.
Qual o tempo máximo que a mulher pode engravidar após ela ou o homem ser infectado pelo vírus?
O que sabemos até o momento é que o período que o vírus circula no sangue ou na urina é de aproximadamente 16 dias. Então, após 21 dias a possibilidade de encontrarmos partículas viras no sangue ou urina é pouco provável. Por precaução, recomendo que o casal que deseja engravidar procure o serviço de saúde do seu município para maiores esclarecimentos. Além disso, há os sites do ministério da saúde e da Fiocruz que contêm informações sobre o vírus zika para ajudar na decisão do casal.



