Mortalidade materna: como combater?


A redução da mortalidade materna é um tema que vem sendo cada vez mais debatido, principalmente em datas, como o Dia Internacional de Luta pela Saúde da Mulher e o Dia Nacional de Redução da Mortalidade Materna, celebrados em 28/5. O intuito é de conscientizar a população sobre o direito da mulher a ter suas necessidades de saúde consideradas como prioridade em qualquer país do mundo, além de servir para abordar doenças ou condições que afetam a população feminina em idade fértil e/ou grávidas, que às vezes até resultam em casos de óbitos maternos, situação que foi acentuada pela pandemia da Covid-19 e que continua a causar preocupação.

A mortalidade materna é fortemente influenciada pelas condições socioeconômicas da população, sendo um notável indicador da qualidade de saúde ofertada para os cidadãos, por isso é um indicador também da qualidade vida dos países no mundo. Para falar sobre o assunto, especialistas da área obstétrica do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) foram consultados.


“A mortalidade materna mede o acesso e adequação do sistema de saúde na atenção às mulheres
no parto e puerpério”, explica o obstetra do IFF/Fiocruz, Marcos Nakamura. Foto: Mustafa Omar


Entendendo a problemática

“A mortalidade materna é um importante indicador da saúde da mulher e da população em geral, contribuindo para o conhecimento de desigualdades quando comparados os índices de populações de países e regiões geográficas em diferentes graus de desenvolvimento, inclusive em uma mesma cidade, por exemplo. Um grupo populacional, como negros e indígenas, também pode ser mais afetado em um mesmo local e isso revelar iniquidades no acesso à atenção obstétrica. A mortalidade materna mede o acesso e adequação do sistema de saúde na atenção às mulheres no parto e puerpério, mas também pode ser revelador do papel da mulher na sociedade”, explica  o obstetra do IFF/Fiocruz e presidente da Comissão de Mortalidade Materna da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), Marcos Nakamura.

É um fato que a pandemia da Covid-19 colapsou o sistema de saúde, afetando não só a saúde dos contagiados pelos vírus, mas também das pessoas que precisavam de atendimento médico, situação que chegou até comprometer a vida de mulheres grávidas ou puérperas. “A razão de mortalidade materna no Brasil se elevou em 2020 e 2021, muito em função da pandemia. Em 2022, provavelmente os números já serão menores (ainda não estão fechados pelo Ministério da Saúde), retornando a níveis próximos aos de 2019. Ainda assim, esse número é elevado em comparação ao de outros países, mesmo da América Latina. Importante ressaltar que o que ocorreu na pandemia serviu para descortinar graves problemas na atenção obstétrica, como insuficiência de leitos de unidade intensiva obstétrica e dificuldades de transferência para leitos de maior complexidade nos casos graves”, acrescenta Nakamura.

Principais desafios 

Para a gestora da Área de Atenção Clínica à Gestante do IFF/Fiocruz, Aricele Ferreira, “o óbito materno ainda é um grande desafio no Brasil e um problema de saúde pública, além de uma grave violação aos direitos humanos, visto que, aproximadamente 92% das causas de óbito são evitáveis. Quando ocorre uma morte materna é necessário que seja realizado um levantamento dos dados sobre o atendimento à esta mulher, com o objetivo de reconstruir a história de vida e de morte dela para melhor entendimento dos problemas ocorridos e a possibilidade de evitar novos casos. Nós, profissionais da obstetrícia, trabalhamos para garantir que as mulheres tenham informação e acesso à serviços de saúde em tempo oportuno para acompanhamento da gestação, identificação de riscos e intercorrências para favorecer um parto seguro para a mãe e o bebê”.

A enfermeira obstétrica do IFF/Fiocruz, Adriana Peixoto, completa. “São muitos os desafios e os principais estão relacionados a desigualdades socioeconômicas que dificultam o acesso das mulheres a um cuidado de saúde oportuno e a capacidade dos serviços de saúde de prestar uma assistência resolutiva e segura, evitando desfechos desfavoráveis”.

O que fazer para reduzir a mortalidade materna?

“Para diminuir a mortalidade materna é preciso encarar cada óbito materno como uma tragédia e uma negligência da sociedade em evitar essa morte, por não colocar a atenção à saúde das mulheres como prioridade. A maioria das mortes que ocorre no Brasil é de causa direta, ou seja, por causas obstétricas (hipertensão, hemorragia, infecção e aborto), que são largamente evitáveis”, adverte Nakamura.

Enquanto alguns desses óbitos dependem mais de mudanças legislativas com debate na sociedade, por exemplo, o caso do aborto, outras dependem de maior acesso e atenção qualificada no pré-natal e parto, como a hipertensão. “Importante que no pré-natal haja identificação de mulheres de risco com encaminhamento pra unidades secundárias ou terciárias, conforme o caso, e assegurar a profilaxia para pré-eclâmpsia, com cálcio e aspirina, quando apropriado. É preciso rever normas de funcionamento de estabelecimentos obstétricos para garantir quantidade de profissionais qualificados 24 horas, laboratório em tempo oportuno e disponibilidade imediata de sangue, quando houver necessidade. Também é necessário organizar a rede de atenção obstétrica regionalizada, garantindo a vinculação entre o pré-natal e a maternidade de referência, dando prioridade de recursos para maternidades que atendam mais de 2000 partos por ano e com número suficiente de leitos de UTI Obstétrica, que tenham intensivistas e obstetras trabalhando em conjunto”, afirma o obstetra.

Mobilização é essencial 

“É muito importante que profissionais de saúde se mobilizem para a redução da mortalidade materna, pois a grande maioria dos casos são evitáveis. Nos últimos anos, houve avanços nas políticas públicas e uma melhora significativa nas taxas de mortalidade materna. Entretanto, ainda temos números alarmantes e uma desaceleração na velocidade de redução dos casos de óbitos maternos. As mulheres têm mais acesso a consultas e exames pré-natal, mas estes nem sempre são capazes de identificar riscos ou tratar as intercorrências de forma efetiva durante o pré-natal, parto e puerpério. A demora na identificação do risco ou na realização da intervenção necessária geralmente é determinante na ocorrência de desfechos. Por isso, é essencial a ação de todos os trabalhadores da saúde e da sociedade em geral para combater a mortalidade materna”, finaliza Adriana Peixoto.

Clique aqui e acesse dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) / DATASUS.

Serviço

A mortalidade materna no Estado do Rio de Janeiro foi tema da audiência pública realizada, em 31/5, pela Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). O obstetra do IFF/Fiocruz, Marcos Nakamura, participou do debate. Clique aqui e assista na íntegra.