O Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) participou do evento Zika, promovido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Academia Nacional de Medicina (ANM) e Academia Brasileira de Ciências (ABC). O evento teve como objetivo desvendar os mecanismos de invasão do vírus Zika no organismo humano e o impacto da infecção no sistema nervoso, incluindo a associação a casos de microcefalia em bebês e de síndrome de Guillain-Barré. Os estudos sobre o tema têm ganhado impulso a partir da estruturação de redes de trabalho, potencializando recursos.
A cooperação científica ganhou destaque nas discussões do evento, com o tema The Zika menace in Americas: challenges and perspectives e One year after the announcement of the national public health emergency in Brazil: lessons, achievements and challenges, o diretor científico da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), Jerson Lima Silva e a coordenadora da Unidade de Pesquisa Clínica do IFF, Maria Elisabeth Lopes Moreira destacaram as principais ações que estão sendo realizadas para o enfrentamento da epidemia de zika e seu vetor de transmissão principal.
Jerson Lima Silva destacou o programa elaborado pela instituição, que apoia seis redes de pesquisa voltadas para estudos sobre Zika, Dengue e Chikungunya. O programa prioriza a busca por respostas emergenciais sobre as doenças, incluindo o estudo de novos métodos de diagnóstico sorológico para o vírus Zika, ações eficientes de controle do vetor – o mosquito Aedes aegypti – e a criação de métodos terapêuticos, como uma potencial vacina. “A comunidade científica tem feito um trabalho impressionante de qualidade e em grande quantidade, como mostra o grande número de publicações referentes a descobertas recentes sobre o vírus Zika. A parceria em pesquisa é fundamental para tratar e prevenir essas doenças”, ressaltou Jerson.
Já a parceria entre a Fiocruz e o Instituto Nacional de Saúde Norte Americano (NIH, na sigla em inglês), permitiu o desenvolvimento de um estudo que avalia os riscos à saúde de gestantes e bebês diante da infecção pelo vírus Zika. “Por meio de um trabalho em rede, estamos desenvolvendo um amplo estudo que permite avaliar o que acontece com os bebês e com os fetos de mães que contraíram o vírus Zika de forma assintomática”, observa Maria Elisabeth Lopes Moreira.
A pesquisadora apresentou, também, um panorama sobre o estudo ‘Zika in Infants and Pregnancy-ZIP’ (Zika em Grávidas e Bebês), que tem o objetivo de acompanhar até 10 mil mulheres, a partir do primeiro trimestre de gravidez, para determinar se foram expostas ao Zika e avaliar as consequências da infecção para mãe e feto nos casos positivos. Os bebês das mães participantes serão acompanhados pelo menos ao longo de um ano após o nascimento. "Temos uma janela de oportunidade para fazer alguma coisa por essas crianças, durante o primeiro ano de vida, que é quando o cérebro ainda está em desenvolvimento, é neste momento, que uma área afetada pode ser substituída pelo crescimento de uma área normal por conta na neuroplasticidade", afirmou Maria Elisabeth.
A pesquisadora frisou a necessidade de investimentos permanentes para trabalhar, desde cedo, o estímulo nessas crianças e minimizar os problemas, melhorando a qualidade de vida e garantindo o desenvolvimento neurológico delas. "Essas crianças que nasceram durante a epidemia de Zika não são uma geração perdida. Nós temos algo para fazer por elas. Todas merecem ser acompanhadas e estimuladas para alcançar suas habilidades de forma integral", disse ela.
Challenges for Zika Molecular Detection and Serology During Pregnancy, também foi tema do evento. Ministrada por Zilton Vasconcelos, pesquisador do IFF, a palestra teve como objetivo apresentar as dificuldades do diagnóstico do vírus Zika, essencial para a confirmação laboratorial da presença do vírus, tanto na gestante, quanto na criança. Essa informação vai de encontro com a preocupação em entender melhor as questões clínicas, uma vez que os sintomas clínicos, apenas em arboviroses como Dengue e Chikungunya, são muitas das vezes muito semelhantes. “Precisamos tentar ser o mais específico possível na detecção do vírus e a partir dessa especificidade, começamos a incluir os casos como expostos ou verdadeiramente infectados”, afirmou o pesquisador.
Os dois tipos de testes usados para diagnóstico do Zika também foram enfatizados pelo pesquisador, que explicou que o molecular, conhecido como PCR, é capaz de detectar o vírus em um curto espaço de tempo e durante a infecção ativa, com baixo potencial de reação cruzada, ou falso positivo; já os testes sorológicos, identificam anticorpos que são gerados em resposta a infecção e, por isso, podem ser detectados em uma janela de tempo maior, indicando diferentes fases da doença, seja ela aguda ou não, auxiliando inclusive na determinação de contato prévio com o vírus. “A questão problemática atual com os testes sorológicos disponíveis é a alta frequência de falso positivo – como o Zika apresenta muitas semelhanças estruturais com a Dengue, indivíduos que tiveram contato prévio com essa arbovirose apresentam positividade para os testes sorológicos com proteínas do Zika, mesmo que nunca tenham contraído esse vírus”, explicou Zilton.
Para o pesquisador, o evento foi excelente pois cobriu vários aspectos do enfrentamento a epidemia do vírus Zika, desde a questão do controle vetorial, a pesquisa básica, até a clínica, tanto em adultos, quanto em crianças. A amplitude do evento, que conseguiu unir pesquisadores de diversas áreas, ao redor do mundo, dedicados ao assunto, também foi enfatizada por Zilton. “O evento nos proporcionou uma noção sobre o estado da arte em Zika após um ano de emergência, hoje temos uma enorme base de ‘conhecimento gerado’ e, principalmente, com uma contribuição importante do Brasil nesse contexto”, finalizou ele.



