Dando início à abertura da 10ª Jornada de Enfermagem em Saúde da Mulher do IFF, realizada no último dia 9, a professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) Samantha Teixeira relembrou os principais aspectos abordados nesses 10 anos de atividades: da ética do exercício profissional, às políticas públicas nesta área, passando pela importância do empoderamento feminino e as questões de gênero, a diversidade cultural, a vulnerabilidade social e econômica, os ciclos da vida, a medicalização do corpo feminino e o papel dos cursos de pós-graduação. A partir de uma retrospectiva das edições passadas, a professora fez uma oportuna reflexão sobre o papel da Enfermagem no cuidado à mulher.“A demanda da sociedade está de acordo com as políticas públicas vigentes para atender a saúde da mulher?”, questionou ela fazendo um alerta: “Se o sistema não é favorável, é preciso unir forças para vencer os desafios que se apresentam”.
Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca), apresentados por ela, a mortalidade proporcional decorrente de câncer de colo de útero e de mama no país não sofreu mudanças no período de 2007 a 2014. “ Qualquer mulher está propensa a ter câncer de colo de útero ou mama. Qual o impacto da minha assistência, enquanto enfermeira, nesse cenário? Através da coleta de preventivo, uma técnica de baixo custo, que nós podemos realizar, é possível mudar esse quadro. E quando falamos de mama, então, a atitude é ainda mais simples, parte da educação”, pontuou.
“A enfermagem tem grande potencial para atuar nesta faixa de atenção à saúde, nós temos o poder de transformar esse cenário com orientação, ética, respeito, cuidados e tecnologias simples. Toda essa reflexão que eu trago hoje reforça o compromisso de cada uma de nós com a assistência e a gama de potencialidades que a gente tem neste aspecto multifacetado que está inserido o cuidado à mulher diante de seus ciclos da vida”, finalizou Samantha.
Por que o feminismo é necessário?
“Não se nasce mulher, torna-se mulher”. Com esta frase, Simone de Beauvoir, marcou o início de um novo tempo. A mulher que, até então já nascia com o futuro traçado – casar e ter filhos – encontrou, no discurso de Simone Beauvoir, a oportunidade de ser dona das próprias escolhas. A ideia de que o destino da mulher é traçado pela cultura em que ela está inserida e não pelo fator biológico foi defendida pela filósofa em uma de suas raras aparições na televisão e que hoje compõe o documentário Por que sou feminista?, de Jean-Louis Servan-Schreiber, exibido durante a programação da Jornada.
Já no início do vídeo, ao ser questionada sobre o que representava esta frase, Beauvoir afirmou: “O que quero dizer é muito simples, ser mulher não é um fato natural, mas sim o resultado de uma certa história. Não há um destino biológico ou psicológico que determine como uma mulher deve ser. Bebês do sexo feminino são manufaturados para virar mulheres”. A luta contra a opressão à mulher ganhava, naquele momento, um grande ícone: nascia o movimento feminista na Europa.
Inspirada na filósofa, a cantora Lilian compôs Sou Mulher. Com melodias doces e uma letra forte, a canção reflete a luta da mulher pela igualdade de direitos e contra os preconceitos .Entre outras tantas músicas de sua autoria, a jovem que saiu da zona rural de Santa Catarina, entoa, em cada verso, o desejo de transformação de uma realidade que ela conhece bem. Assim como Beauvoir, Lilian persistiu e fez de sua vida algo completamente diferente do esperado para uma mulher do interior, de onde ela veio.
“Venho de uma cidade de três mil habitantes. Superando todos os medos, inseguranças e preconceitos da família, fui a primeira a sair daquela vida com o objetivo de estudar na cidade grande. Ouvia diariamente minha mãe falar ‘minha filha, volta que isso não é para você’. Aquela vida da roça em que as meninas eram educadas para casar não era pra mim. Eu remei muito contra a maré, porque a realidade que eu vislumbrava era outra: eu queria estudar, ter uma profissão, ser cantora, morar numa cidade grande, correr atrás do meu sonho. Isso tudo era muito além do que se esperava para a realidade em que eu vivia”, ressaltou a cantora.
Ao lado do pianista e multi-instrumentista Eduardo Farias, Lilian animou a tarde do primeiro dia da jornada com seu repertório autoral. Por trás das melodias doces, a reflexão sobre o empoderamento feminino na busca pela igualdade deu o tom do painel dedicado as perspectivas do feminismo na atualidade. “Eu tenho muito orgulho de ter conseguido vencer as dificuldades. É esse sentimento que eu emprego nas minhas canções. Abordo questões que me comovem e que de alguma maneira transformam a mim e a quem ouve”, ressaltou Lilian.
O painel contou ainda com a participação da analista responsável pelo Fale Conosco do IFF e professora convidada do Departamento de Direitos Humanos, Saúde e Diversidade Cultural da Escola Nacional de Saúde Pública (Dihs/Ensp/Fiocruz), Valéria Aguiar. Valéria contextualizou o histórico do movimento feminista francês, que foi o pano de fundo para a publicação de Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, e como o movimento teve reflexos no Brasil. “Se lá na Europa o feminismo ganhou espaço no contexto de liberdade, fraternidade e igualdade do pós-guerra, aqui no Brasil, o movimento ganhou espaço, entre a burguesia intelectualizada, contra a ditadura. Após as diretas já, houve um recuo desta pauta”, observa.
Anos depois, liderados pelas minorias oriundas, em sua maioria, das comunidades menos favorecidas, o movimento ganhou outra conotação. “Presenciamos na atualidade outros movimentos de tensão promovidos pelas mulheres. A bandeira agora está relacionada à autonomia do corpo feminino. O corpo se tornou objeto de luta, deixando de ser visto como uma propriedade do Estado. Desta forma, questões referentes, por exemplo, ao aborto e gênero devem ser decisões subjetivas, da pessoa, não cabendo nenhum tipo de regulamentação”, destacou Valéria.
Os participantes puderam manifestar suas opiniões, iniciando um rico diálogo. Entre as questões levantadas pela plateia, destacaram-se a aceitação social das diversas conformações de gêneros, como as religiões estão lidando com essa realidade e as manifestações da atualidade lideradas pelas minorias que estão indo para as ruas contra o feminicídio e a opressão étnico-racial. Segundo dados do Mapa da Violência 2015: Homicídio de Mulheres, metade dos assassinatos de mulheres registrados em 2013 foi cometido por familiares. A estatística revela uma média de 13 homicídios femininos por dia. O estudo foi elaborado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), com apoio do escritório no Brasil da ONU Mulheres, da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) e da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM) do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos.



