Encontro do IFF/Fiocruz debate cuidado e diversidade para mães e crianças

 

O Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) sediou um significativo encontro de profissionais da psicologia, promovido para debater e refletir sobre o cuidado e a diversidade, com foco especial nas mães de crianças e adolescentes com condições crônicas. Realizado no dia 29 de agosto, o evento contou com a presença de diversos especialistas da área da saúde, que se reuniram no anfiteatro A do Centro de Estudos Olinto de Oliveira (CEOO) na instituição para discutir sobre o cuidado em uma perspectiva decolonial, que busca privilegiar uma diversidade de formas de existência, muitas vezes sujeitas a silenciamento, descaso e preconceito.

A abertura científica do evento foi marcada por falas importantes. O diretor do CEOO e pediatra do Instituto, José Augusto Alves de Britto, destacou a relevância do encontro para o avanço das discussões sobre saúde e cuidado. A chefe do Gabinete da Direção do IFF/Fiocruz, Mariana Setúbal, trouxe uma visão sobre a importância da integração de diferentes perspectivas no cuidado infantil. Por sua vez, a coordenadora de Saúde Mental da unidade, Mirtes Nascimento, ressaltou a necessidade de estratégias institucionais que apoiem mães e cuidadores no enfrentamento dos desafios diários.

Mesa composta pelas psicólogas palestrantes: (E>D) Nathália Lopes (PUC-Rio), seguida por Luciana Ferreira (UFRJ), Kátia Souza e a pesquisadora, Paula Gaudenzi (IFF/Fiocruz). Foto: Mayra Malavé (IFF/Fiocruz)

Cuidadoria e Inclusão

O projeto Cuidadoria de Mães, apoiado pelo Programa de Políticas Públicas, Modelos de Atenção e Gestão do Sistema de Serviços de Saúde (PMA/Fiocruz), foi destaque na celebração.

Durante sua palestra, a psicóloga do IFF/Fiocruz e coordenadora do Projeto, Kátia Souza, destacou a experiência das mães que acompanham seus filhos cronicamente adoecidos em longas internações hospitalares, evidenciando as dificuldades enfrentadas por essas mulheres que vivem isoladas dentro de um contexto hospitalar que as deixa excluídas do acontecer diário da sociedade. Segundo Souza, "o papel do cuidado é majoritariamente atribuído às mulheres, e na pandemia ficou ainda mais evidente que era necessário um olhar mais atento para essas mães".

O Projeto Cuidadoria de Mães foi apresentado como uma iniciativa de inovação no cuidado, que surgiu para oferecer suporte às mães através de um dispositivo multidisciplinar de produção de cuidados. A proposta é fundamentada em quatro eixos: autocuidado, cuidado criativo, lazer e cultura, e direitos humanos como cuidado. Essas linhas foram pensadas para minimizar os impactos sociais da hospitalização prolongada, fortalecer o protagonismo das cuidadoras e atenuar as rupturas provocadas pela internação dos filhos na vida dessas mulheres.

Kátia Souza também abordou o tema da sua pesquisa de pós-doutorado: "Mulheres no cuidado dos filhos cronicamente adoecidos e os atravessamentos interseccionais". Ela discutiu a importância de reconhecer as diversas dimensões de opressão e ações discriminatórias que essas mães enfrentam, destacando a necessidade de abordagens mais inclusivas e equitativas na saúde. A psicóloga enfatizou que "cuidar é um verbo que carrega em si a diversidade", chamando a atenção para a urgência de um cuidado que respeite as experiências e escolhas dos sujeitos, ancorado nos pilares de universalidade, integralidade e equidade, que são fundamentais para o Sistema Único de Saúde (SUS).

Valorização do trabalho materno

A psicóloga clínica e perinatal, representante da campanha Maio Furta-Cor/RJ e professora da Pontifícia Universidade Católica de Rio de Janeiro (PUC-Rio), Nathália Lopes, abordou a "Economia do Cuidado", destacando sua evolução desde a década de 70 até o reconhecimento mais amplo no contexto atual. Em sua fala, Nathalia enfatizou. "A economia do cuidado engloba todas as tarefas relacionadas ao cuidado, sejam remuneradas ou não, e é essencial que essas funções sejam devidamente reconhecidas e valorizadas".

Nathália discutiu as consequências econômicas e psíquicas da falta de apoio à saúde mental materna, como a sobrecarga que afeta diretamente o desenvolvimento infantil e a qualidade de vida das famílias. Ela também apresentou a campanha "Maio Furta-Cor", que visa dar visibilidade à saúde mental materna e mobilizar a sociedade em torno dessa causa.

Vivências de crianças e adolescentes com experiências trans

A pesquisadora do IFF/Fiocruz, Paula Gaudenzi, focou na abordagem ética e responsável do cuidado a crianças e adolescentes com experiências trans. Paula refletiu sobre como a escuta psicanalítica deve ser ajustada para atender a essas crianças com sensibilidade e consciência das próprias limitações. "A escuta psicanalítica precisa se adaptar para reconhecer e validar as experiências trans das crianças sem se prender a normas fixas ou expectativas externas".

Paula abordou o impacto do pertencimento social e como as perspectivas do especialista em saúde mental influenciam a prática clínica. Gaudenzi também debateu sobre os desafios enfrentados por crianças trans em um ambiente muitas vezes hostil e a importância de políticas públicas que promovam a dignidade e o bem-estar dessas crianças.

O evento do Dia do Psicólogo no IFF/Fiocruz foi encerrado com a palestra da psicóloga da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Luciana Ferreira, que tratou os "Desafios da Parentalidade nos Novos Papéis e Configurações Familiares". Com uma abordagem enriquecedora e reflexiva, Ferreira destacou as complexidades e as oportunidades que surgem com as novas dinâmicas familiares.

Após a palestra de Luciana Ferreira, houve uma sessão de perguntas e respostas, promovendo um debate aprofundado sobre o tema. O evento foi concluído com um coffee break, proporcionando um momento de interação e networking entre os presentes. O encontro reforçou a importância da reflexão contínua sobre a psicologia e seu impacto nas diversas configurações familiares, destacando o papel fundamental dos profissionais da área na adaptação às novas realidades sociais.