Dia Nacional de Combate ao Fumo: IFF/Fiocruz alerta para os riscos do tabagismo na gravidez


O tabagismo permanece como um dos principais problemas evitáveis de saúde pública, especialmente durante o período reprodutivo. A exposição ao tabaco na gestação está associada a um maior risco de complicações para a gestante, o feto e o recém-nascido, com efeitos que podem comprometer o desenvolvimento da criança e repercutir na saúde ao longo da infância e da adolescência.

O cigarro contém milhares de substâncias químicas, entre elas a nicotina, o monóxido de carbono e diversos compostos tóxicos e cancerígenos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) ressalta que não existe nível seguro de exposição ao tabaco, seja pelo consumo ativo ou pela exposição à fumaça ambiental.

A série temporal do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), de 2006 a 2024, mostra uma tendência de queda da prevalência de tabagismo entre adultos. No entanto, a Vigitel mostrou que o consumo do tabaco entre as mulheres brasileiras avançou de 7,2% em 2023 para 9,8% em 2024, um aumento de 36%.

No contexto do Dia Nacional de Combate ao Fumo, celebrado em 29 de agosto, convidamos o obstetra do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), Vander Guimarães Silva, para esclarecer algumas dúvidas sobre os impactos maternos, fetais e estratégias de cessação do tabagismo.

1. Como o cigarro afeta o organismo da gestante durante a gravidez e quais são os principais riscos do tabagismo para a saúde da mãe?

Vander: O tabagismo interfere em múltiplos sistemas do organismo materno. A nicotina aumentando a frequência cardíaca e provoca vasoconstrição (estreitamento dos vasos sanguíneos). Já o monóxido de carbono, presente na fumaça do cigarro, se liga às células responsáveis por transportar oxigênio no sangue, reduzindo a quantidade disponível para a mãe e o bebê.

Do ponto de vista obstétrico, mulheres que fumam apresentam maior risco de complicações relacionadas à placenta, incluindo placenta prévia (quando a placenta se fixa na parte inferior do útero, cobrindo total ou parcialmente o colo uterino), descolamento prematuro de placenta e hemorragia. O tabagismo também está associado a maior risco de aborto espontâneo, parto prematuro, restrição do crescimento fetal, morte fetal e mortalidade perinatal. Além disso, o uso de cigarro aumenta o risco de gestação ectópica (quando o embrião se desenvolve fora do útero) e pode afetar negativamente a fertilidade feminina antes mesmo da concepção.

É importante lembrar que os riscos maternos não se limitam à gestação. O tabagismo é fator de risco para doenças cardiovasculares, doenças respiratórias crônicas, diversos tipos de cânceres e outras condições que comprometem a qualidade e a expectativa de vida. Portanto, a gravidez deve ser compreendida como uma oportunidade particularmente importante para a identificação da dependência de nicotina e para a oferta de tratamento para cessação.

2. Quais são as principais consequências do tabagismo para o desenvolvimento do bebê?

Vander: O feto é particularmente vulnerável aos efeitos do tabagismo materno. A exposição à nicotina e ao monóxido de carbono pode comprometer a oxigenação fetal e a perfusão placentária (fluxo de sangue que passa da mãe para a placenta). Como consequência, o tabagismo materno está associado a restrição do crescimento intrauterino, baixo peso ao nascer e maior risco de nascimento prematuro.

O baixo peso ao nascer constitui uma das consequências mais bem estabelecidas do tabagismo durante a gestação e pode decorrer tanto da restrição do crescimento fetal quanto da maior frequência de parto prematuro. Esses recém-nascidos apresentam maior vulnerabilidade a complicações neonatais, incluindo dificuldades respiratórias, alterações metabólicas e necessidade de internação em unidades de terapia intensiva neonatal. Seus efeitos abrangem todo o período perinatal e podem influenciar a saúde respiratória, cardiovascular e o desenvolvimento global da criança.

3. O fumo passivo também representa riscos para a gestante e para o bebê?

Vander: Sim. A exposição passiva à fumaça do tabaco representa risco tanto para a gestante quanto para o feto e o recém-nascido. A fumaça ambiental contém nicotina, monóxido de carbono e diversas substâncias tóxicas, de modo que a pessoa não fumante exposta em ambientes contaminados também absorve componentes potencialmente prejudiciais.

Por essa razão, a recomendação não deve ser simplesmente "não fumar perto da criança". O ideal é manter ambientes completamente livres de fumaça de tabaco, incluindo residência e veículo. A proteção da gestante e da criança depende também da cessação do tabagismo dos demais membros da família e da criação de uma rede de apoio que favoreça um ambiente livre de fumaça.

4. Os efeitos do tabagismo podem acompanhar a criança após o nascimento?

Vander: Sim. As consequências da exposição ao tabaco podem persistir após o nascimento. Crianças expostas durante a gestação podem apresentar maior risco de alterações respiratórias, redução da função pulmonar e maior suscetibilidade a infecções respiratórias. A exposição ambiental ao tabaco após o nascimento aumenta adicionalmente esses riscos.

A infância é um período crítico para o desenvolvimento pulmonar. Após o nascimento, crianças expostas à fumaça do tabaco apresentam maior risco de infecções respiratórias, bronquite, pneumonia, exacerbações de asma e otite média. A exposição também está associada ao aumento do risco de síndrome da morte súbita do lactente. A combinação da exposição pré-natal e pós-natal pode contribuir para maior vulnerabilidade respiratória.

Além dos efeitos respiratórios, a exposição precoce ao tabaco pode contribuir para consequências de longo prazo e para a maior probabilidade de iniciação do próprio consumo de tabaco durante a adolescência. Por isso, a prevenção deve começar ainda no pré-natal e envolver não apenas a gestante, mas toda a família.

5. Se a mulher descobre a gravidez e para de fumar imediatamente, os riscos diminuem?

Vander: Sim. Essa é uma das mensagens mais importantes para as mulheres que fumam e engravidam: parar de fumar em qualquer momento da gestação traz benefícios. Embora a cessação antes da concepção seja a situação ideal, interromper o tabagismo assim que a gravidez é identificada reduz a exposição fetal às substâncias tóxicas do cigarro e diminui o risco de complicações.

Quanto mais precoce for a interrupção, maior tende a ser o benefício potencial. Entretanto, não existe um momento da gestação em que seja "tarde demais" para parar. Mesmo mulheres que não conseguiram abandonar o cigarro no primeiro trimestre devem ser estimuladas a interromper o consumo posteriormente.

Dessa maneira, a descoberta da gravidez deve ser vista como uma oportunidade para intervenção, e não como motivo para culpabilização da mulher.

6. Quais estratégias são mais indicadas para ajudar uma gestante a deixar o tabagismo? Como o IFF/Fiocruz atua nesses casos?

Vander: A abordagem da gestante tabagista deve ser sistemática e integrada ao pré-natal. O primeiro passo é perguntar de maneira não julgadora sobre o uso de tabaco, identificar o padrão de consumo e avaliar o grau de dependência à nicotina. O IFF/Fiocruz, por meio de suas iniciativas de atenção materno-infantil e de disseminação de conhecimento, destaca a importância da identificação do tabagismo durante o acompanhamento da gestação e da abordagem dos riscos associados ao consumo de tabaco. Materiais de orientação do Instituto recomendam que todas as gestantes sejam questionadas sobre o uso e que a dependência seja avaliada durante o pré-natal.

A principal estratégia é o aconselhamento estruturado, baseado em técnicas cognitivo-comportamentais e motivacionais. A gestante deve receber informações claras sobre os riscos do tabagismo e os benefícios da cessação, além de apoio para reconhecer situações de gatilho, lidar com sintomas de abstinência e desenvolver estratégias para evitar recaídas. O tratamento deve ser individualizado e pode envolver o parceiro, familiares e outras pessoas importantes da rede de apoio.

A orientação oficial enfatiza inicialmente estratégias não farmacológicas, uma vez que a evidência sobre a segurança e eficácia de medicamentos para cessação durante a gestação é mais limitada do que na população geral. A decisão sobre eventual uso de terapia farmacológica deve ser individualizada, considerando o grau de dependência, a intensidade do consumo, tentativas anteriores de cessação e a avaliação de riscos e benefícios por profissional habilitado.

7. Fumar durante a amamentação também oferece riscos ao bebê?

Vander: Sim. Embora o leite humano continue sendo recomendado, o tabagismo durante a lactação pode trazer riscos. A nicotina e outros componentes do tabaco podem passar para o leite, e a exposição ambiental à fumaça representa uma fonte adicional de risco.

O tabagismo pode reduzir a produção de leite, alterar seu sabor e potencialmente interferir no ganho de peso do bebê. Além disso, a exposição da criança à fumaça ambiental aumenta o risco de doenças respiratórias e alérgicas. O contato com resíduos de fumaça em roupas, cabelos, móveis e superfícies também é relevante, caracterizando o chamado "third-hand smoke" ou exposição à fumaça de terceira mão.

Apesar desses riscos, a mulher que não conseguiu parar de fumar não deve ser automaticamente desencorajada a amamentar. A orientação deve priorizar a cessação do tabagismo e a proteção da criança contra a fumaça, destacando que o período de lactação é uma oportunidade para continuidade da abordagem de cessação, e que a interrupção do tabagismo beneficia tanto a mãe quanto o bebê.

8. Reduzir a quantidade de cigarros já é suficiente?

Vander: Não. Reduzir o número de cigarros consumidos pode representar um passo intermediário para a cessação, mas não significa ausência de risco. Mesmo pequenas quantidades de exposição ao tabaco podem representar prejuízos à saúde, e não existe nível seguro de exposição à fumaça do tabaco.

Além disso, algumas pessoas que reduzem a quantidade de cigarros podem compensar a redução fumando cada cigarro de maneira mais intensa, com tragadas mais profundas ou prolongadas. Por isso, a redução isolada não deve ser apresentada como objetivo final do tratamento. A meta deve ser a cessação completa.

Para uma gestante que não consegue parar imediatamente, reduzir o consumo pode ser uma etapa importante dentro de um plano estruturado de cessação. O profissional de saúde deve reconhecer esse progresso, mas manter como objetivo final a interrupção completa do uso de tabaco. As diretrizes brasileiras de tratamento do tabagismo estabelecem a cessação total como meta terapêutica.

9. Há diferença nos malefícios e orientações em relação ao cigarro eletrônico (vapes)?

Vander: No cigarro eletrônico (aerossol) não há combustão, mas sim a vaporização de um líquido rico em sais de nicotina, muitas vezes em doses muito superiores às de um cigarro comum. Além disso, o aquecimento do líquido gera substâncias citotóxicas e cancerígenas como formaldeído, acroleína e metais pesados (níquel, chumbo). O cigarro eletrônico traz riscos graves equivalentes devido à alta concentração de nicotina e à inalação de metais pesados, solventes e aromatizantes químicos. Pode-se concluir, com as observações acima, que as mesmas complicações materno-fetais observadas com o uso do cigarro comum podem estar associadas ao uso do cigarro eletrônico.

10. Qual é a principal orientação para uma mulher que fuma e está planejando engravidar ou acabou de descobrir a gestação?

Vander: A principal orientação é: pare de fumar o quanto antes e procure ajuda profissional para conseguir manter a abstinência. O ideal é que a cessação aconteça antes da concepção, pois isso reduz a exposição do embrião desde os primeiros estágios do desenvolvimento e permite que a mulher chegue à gravidez em melhores condições de saúde.

Para a mulher que está planejando engravidar, o momento pré-concepcional representa uma excelente oportunidade para avaliar a dependência de nicotina, estabelecer uma data para cessação e buscar suporte profissional. Para aquela que acabou de descobrir a gravidez e ainda fuma, a mensagem deve ser igualmente clara: nunca é tarde para parar. A interrupção imediata do tabagismo proporciona benefícios mesmo quando realizada durante a gestação.

É fundamental evitar abordagens moralizantes ou culpabilizadoras. A dependência de nicotina é uma condição que pode exigir acompanhamento e múltiplas tentativas antes da cessação definitiva. O papel da equipe de saúde é acolher, orientar, acompanhar e oferecer estratégias adequadas para aumentar a probabilidade de sucesso.

Serviço

O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece tratamento gratuito e completo contra o tabagismo por meio do Programa Nacional de Controle do Tabagismo. Clique aqui para saber quais são os locais de tratamento.