Dia do Orgulho LGBTQIA+: celebrar a diversidade é reafirmar direitos, respeito e cidadania

 

Celebrado em 28 de junho, o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+ é uma data que ultrapassa o contexto comemorativo para se consolidar como um símbolo de resistência, memória e luta por direitos. Mais do que celebrar identidades e trajetórias, a ocasião convida a sociedade a refletir sobre os desafios que ainda atravessam a vida de pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, queer, intersexo, assexuais e outras identidades de gênero e orientações sexuais.

Importantes conquistas foram alcançadas no campo dos direitos civis ao longo das últimas décadas, especialmente quanto ao acesso à educação, na participação social e na saúde. No entanto, a discriminação, a violência e as desigualdades continuam fazendo parte da realidade de muitas pessoas LGBTQIA+, evidenciando a necessidade de fortalecer políticas públicas, ampliar espaços de representatividade e promover uma cultura baseada no respeito à diversidade.

Para discutir esses avanços e desafios, o Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) ouviu dois especialistas que atuam diretamente com questões relacionadas às diversidades sexuais e de gênero: o pesquisador do Instituto, Carlos Renato Alves da Silva, e o recém-formado doutor em saúde coletiva pelo IFF/Fiocruz e especialista em gênero e sexualidade, Leonardo Peçanha.

A importância do acolhimento e da formação para uma saúde mais inclusiva

Quando o assunto é o acesso à saúde, Carlos Renato frisou que um dos principais desafios ainda está relacionado à formação dos profissionais e à capacidade das instituições de compreenderem as especificidades da população LGBTQIA+. Segundo ele, embora o Brasil possua uma Política Nacional de Saúde Integral voltada para essa população, muitas pessoas ainda enfrentam situações de constrangimento e discriminação durante o atendimento nos serviços de saúde.

“Uma das questões que precisam ser refletidas quando falamos do cuidado à saúde da população LGBTQIA+ está relacionada ao conhecimento e ao entendimento das diversidades sexuais e de gênero pelos trabalhadores e trabalhadoras dos serviços de saúde. O que chamamos de letramento sobre essas diversidades vai muito além do atendimento. Trata-se de uma aprendizagem necessária para a vida em sociedade”, afirmou.

Carlos Renato é pesquisador do IFF/Fiocruz (Foto: Bruno Guimarães)

O pesquisador observou que ainda são frequentes relatos de desrespeito ao nome social, dificuldades no acolhimento de pessoas trans e abordagens baseadas em concepções rígidas de gênero e sexualidade.

“Existem inúmeros registros, tanto em órgãos de defesa dos direitos humanos quanto em estudos científicos, que revelam situações de violência simbólica e institucional. Essas violências aparecem no tratamento inadequado dos nomes sociais, nas abordagens clínicas que ignoram necessidades específicas e na permanência de práticas orientadas por uma lógica binária e heteronormativa”, explicou.

Para ele, promover o letramento sobre diversidade sexual e de gênero é um passo essencial para transformar esse cenário: “Acredito que o letramento sobre as diversidades sexuais e de gênero, tanto nos espaços públicos quanto nos privados, é condição fundamental para a mudança da cultura de uma sociedade. É um processo que precisa ser institucionalizado e incorporado às práticas cotidianas”.

O papel da Fundação na promoção da equidade

Conforme ponderou Carlos Renato, a Fiocruz vem ampliando iniciativas voltadas à promoção da diversidade, da inclusão e da equidade em seus espaços institucionais. Entre as ações desenvolvidas estão os trabalhos conduzidos pela Coordenação de Equidade, Diversidade, Inclusão e Políticas Afirmativas (CEDIPA), pelo Comitê Pró-Equidade de Gênero e Raça e pelos núcleos locais voltados à temática nas diferentes unidades da Fundação, como o Núcleo de Equidade, Diversidade e Políticas Afirmativas do IFF/Fiocruz.

Recentemente, a Fiocruz recebeu o selo da 7ª edição do Programa Pró-Equidade de Gênero e Raça, reconhecimento concedido a instituições que implementam ações efetivas para a promoção da igualdade, da diversidade e da inclusão no ambiente de trabalho. Para o pesquisador, mais do que conquistar certificações, é fundamental garantir a continuidade dessas ações.

“O que se espera é que a Fiocruz realize regularmente o monitoramento dos indicadores pactuados e continue fortalecendo iniciativas voltadas para a promoção da equidade. Esse é um compromisso permanente que precisa fazer parte da cultura institucional”.

Carlos Renato participa de eventos e reforça as ações promovidas pela Fiocruz

Produção científica que amplia vozes e visibiliza experiências

Além das ações institucionais, o IFF/Fiocruz tem contribuído para ampliar a produção de conhecimento sobre questões relacionadas às diversidades sexuais e de gênero. Nos últimos anos, pesquisas desenvolvidas na instituição têm abordado temas muitas vezes invisibilizados nos debates sobre saúde, como os impactos das desigualdades sociais na vida da população LGBTQIA+. Segundo Carlos Renato, a produção científica tem papel estratégico para promover mudanças sociais e institucionais.

“O Instituto se destaca pela produção de estudos científicos que abordam temáticas complexas e necessárias para a promoção da inclusão. São pesquisas que ajudam a compreender experiências que historicamente ficaram à margem dos debates e que contribuem para a formulação de políticas públicas mais sensíveis às necessidades dessas populações", salientou Carlos Renato, acrescentando: “Observamos um aumento, ainda que insuficiente, do ingresso de pessoas travestis e trans na academia. Isso amplia a possibilidade de produção de conhecimento a partir de experiências historicamente silenciadas. Mas é preciso pensar não apenas no acesso, e sim na permanência e nas oportunidades reais de desenvolvimento profissional”.

Orgulho construído por meio da trajetória e da participação coletiva

Falar sobre orgulho é também falar sobre pertencimento, reconhecimento e construção coletiva. Homem trans, pesquisador e doutor em Saúde Coletiva pelo IFF/Fiocruz, Leonardo Peçanha lembrou sua trajetória no Instituto como um processo marcado por aprendizado, participação política e produção acadêmica.

“O que eu posso falar de orgulho de fazer parte dessa instituição é justamente a minha trajetória dentro do IFF/Fiocruz. Antes mesmo de ingressar oficialmente no doutorado, eu já participava de algumas atividades como aluno externo. Depois que entrei, em 2021, me envolvi em diversas iniciativas acadêmicas e coletivas que foram fundamentais para minha formação”, ressaltou.

Leonardo (esquerda) é um dos autores do livro sobre transmasculinidades negras

Ao longo dos últimos anos, Leonardo atuou como representante discente, participou da Associação de Pós-Graduandos da Fiocruz, integrou o Coletivo Negro da instituição, colaborou na construção do coletivo LGBTQIA+ da Fundação e participou de eventos científicos nacionais e internacionais.

“Também tive a oportunidade de lançar meu livro sobre transmasculinidades negras, participar de congressos, publicar artigos e capítulos de livros e realizar uma experiência internacional com apoio da Fiocruz. Tenho muito orgulho dessa trajetória e de tudo o que consegui construir”, comemorou Leonardo.

Muito além das discussões sobre identidade de gênero

Um desafio frequentemente enfrentado por pessoas trans no ambiente acadêmico e profissional é a expectativa de que elas falem exclusivamente sobre questões relacionadas à identidade de gênero. Segundo Leonardo, essa visão reduz a complexidade das experiências e limita a participação dessas pessoas em outros campos do conhecimento. Embora sua própria trajetória acadêmica esteja ligada aos estudos de gênero e sexualidade, ele ressaltou que a experiência de ser trans não transforma automaticamente alguém em especialista nesse campo.

"As pessoas trans estão em diversas áreas do conhecimento, e existem muitas pessoas trans em pesquisa sobre gênero e sexualidade, mas nem todo mundo vai querer falar sobre isso ou falar de um lugar mais profundo, porque ser trans é uma subjetividade na vida de cada um. Eu sou especialista em gênero e sexualidade, mas isso é algo que já estudava desde a graduação. Existe uma cobrança muito grande para que falemos sobre esse tema, sendo que podemos falar sobre diversas outras áreas, e isso também é uma forma de preconceito. Ainda há muita dificuldade em entender que não basta ser trans para falar de gênero e sexualidade, assim como nem toda pessoa trans vai saber abordar esse tema de forma mais técnica. Falar de vivências e experiências coletivas é uma perspectiva válida e que contribui muito, mas nem todas as pessoas trans vão se sentir confortáveis em falar de si publicamente e isso não deve ser uma obrigação, pois cada pessoa vai poder estudar e se especializar naquilo que se interessar e nem sempre será sobre os temas de gênero e sexualidade. Então, é algo muito delicado que colocam sobre nós, mas que, cada vez mais, temos conseguido ultrapassar essa barreira".

Leonardo colaborou na construção do coletivo LGBTQIA+ e participou de eventos científicos internacionais

Reconhecimento, saúde mental e qualidade de vida

Ao refletir sobre o significado do orgulho no cotidiano, Leonardo destacou a importância do reconhecimento e do respeito para a construção do bem-estar emocional. Além disso, o compartilhamento de conhecimento pode contribuir para reduzir preconceitos, combater estigmas e ampliar oportunidades para outras pessoas.

“Ser respeitado pelo trabalho que faço e pela contribuição que ofereço é algo muito importante. Isso fortalece minha autoestima e minha saúde mental. Quando realizo palestras, aulas ou participo de eventos, também penso na possibilidade de colaborar para a redução de vulnerabilidades sociais. Tenho orgulho de poder contribuir de alguma maneira e desejo continuar fazendo isso cada vez mais”.

Ao celebrar o Dia do Orgulho LGBTQIA+, as reflexões dos pesquisadores reforçam que a construção de uma sociedade mais justa depende do compromisso coletivo com o respeito, a inclusão e a valorização das diferenças. Em um contexto marcado por avanços importantes, mas também por desafios persistentes, a data segue lembrando que orgulho é, acima de tudo, a afirmação do direito de existir, ocupar espaços e viver com dignidade.