O cenário epidemiológico do Brasil está evoluindo por conta da vacinação contra a Covid-19, mas, mesmo antes de chegar ao país, em novembro de 2021, a nova variante Ômicron já levantava muitas questões, especialmente sobre a sua alta transmissibilidade, razão que fez a Organização Mundial da Saúde (OMS) denominá-la como uma Variante de Preocupação (VOC, na sigla para o termo em inglês Variants Of Concern). Nesse contexto, como muitos especialistas já esperavam, por conta das aglomerações das festas de Natal e Réveillon, iniciamos 2022 com um aumento significativo dos casos de Covid-19 no país.
O fato de que a infecção pela variante Ômicron esteja em uma crescente pelo mundo, faz com que as crianças também sejam afetadas. Conforme explicado pelo pediatra e infectologista do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), Marcio Nehab, ainda é cedo para conhecer informações suficientes sobre como age a nova variante na população infantil e nas diferentes faixas etárias. No entanto, o que se espera é que, em geral, a Ômicron não mude muito em seus efeitos nas crianças quanto as outras variantes até agora.
Internações e óbitos
O Boletim do Observatório Covid-19 da Fiocruz, concernente às Semanas Epidemiológicas (SE) 1 e 2 de 2022 (de 2 a 15 de janeiro), apresenta um balanço da pandemia a partir do monitoramento de internações, perfil demográfico e transmissão de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) no país. Conforme expressado no documento, nesse período houve um aumento no número de casos de Covid-19, “com uma média de 49 mil por dia, uma diferença de seis vezes o observado no início de dezembro de 2021”, destacando-se uma maior presença das idades mais jovens, tanto para internações quanto para óbitos, sendo bastante notável as internações de crianças com até 2 anos. O Boletim também mostra que o grupo de 0 a 19 anos, no início de 2021, representava 4,5% dos casos, enquanto na SE 1 de 2022 representa 7,9% das internações nessa faixa etária. Para os óbitos, o grupo de 0 a 19 anos costumava representar menos de 1% do volume de mortes. Na SE 1 de 2022, o dado é de 1,9%, quase o dobro.
O Boletim ratifica a efetividade da vacinação, destacando que a redução da gravidade dos casos de Covid-19 é produto da alta cobertura vacinal alcançada no Brasil. Comparando com países com baixa cobertura vacinal, como alguns da Europa Oriental e do Oriente Médio, que mantém uma letalidade alta, evidencia-se que a variante Ômicron pode, nesses contextos, causar um aumento de quadros clínicos graves e levar à morte grande parte dos infectados. “Até o momento, o que sabemos é que no Brasil, as chances de internação em vacinados acima de 12 anos com a Variante Ômicron é muito menor do que a internação dos não vacinados”, afirma Nehab.
Gravidade em crianças
Sobre a nova cepa ser mais grave em crianças do que as outras variantes, o pediatra e infectologista comenta. “É muito difícil ter a certeza da gravidade de uma nova cepa bem no início da sua aparição, mas, mesmo que haja aumento das hospitalizações em crianças com coronavírus, é difícil provar causalidade. Por exemplo, uma criança pode ser internada com apendicite e no protocolo da internação o resultado da testagem para Covid-19 (seja por PCR ou por antígeno) dar positivo, nesse caso, essa decorrência simplesmente é incidental e não é a causa da internação. Essa situação de causalidade é importante entender porque é muito difícil ter a certeza da gravidade de uma nova cepa bem no início da sua aparição”.
Sintomas em crianças
Segundo Marcio, com a variante Ômicron continua sendo um desafio diferençar o vírus SARS-Cov-2 (causador da Covid-19) de qualquer outra infecção por vírus respiratório comum na infância. “Os sinais e sintomas são exatamente os mesmos, e os pais precisam se atentar caso os filhos apresentem: queda do estado geral, espirros, desidratação, diarreia, falta de ar, tosse, dificuldade para respirar e sinais clínicos de gravidade de qualquer outra infecção, seja respiratória ou gastrointestinal”.
Especialistas do IFF/Fiocruz recomendam a vacinação contra a Covid-19 em crianças a partir de 5 anos.
Para a pesquisadora do IFF/Fiocruz, Daniella Moore, “Não há dúvidas sobre a segurança da vacina” /
Foto: Boletim Observatório Covid-19 Fiocruz
Prevenção ao contágio
“A melhor maneira de prevenir o contágio é com as medidas não farmacológicas e a vacinação. Lavar as mãos, evitar aglomerações, usar adequadamente as máscaras (cobrindo boca e nariz), e com a vacinação em dia dos grupos que já podem se vacinar, incluindo o grupo de crianças acima de 5 anos, após aprovação do Ministério da Saúde (MS). A vacinação foi feita para proteger a população, principalmente das formas graves e óbitos, então, se as pessoas que estão ao redor de crianças entre 0 e 5 anos estiverem vacinadas de forma adequada, as chances desse grupo pegar é menor”, afirma Nehab.

A grande maioria dos efeitos observados em crianças vacinadas contra Covid-19 são sintomas
que os pais já estão acostumados a lidar após vacinas em geral / Foto: Shutterstock
Segurança das vacinas
Para falar sobre a segurança das vacinas contra a Covid-19 em crianças entre 5 e 11 anos, foi consultada a pediatra e pesquisadora clínica do IFF/Fiocruz, Daniella Moore, coordenadora do estudo VacinaKids, que analisou a intenção dos pais de vacinar seus filhos para Covid-19 no Brasil. “Não há dúvidas sobre a segurança da vacina, a fase 3 dos testes em crianças nessa faixa etária mostraram que a vacina é extremamente segura, por isso foi aprovada. Também temos os dados do órgão regulador americano: o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), que trouxe a publicação do monitoramento de 8,7 milhões de doses aplicadas nessa faixa etária. Dessas doses, apenas 0,049% causaram efeitos adversos. A grande maioria deles, cerca de 97,6% dos efeitos observados, foram sintomas, como: dor no local da injeção, dor muscular, dor de cabeça e febre, ou seja, sintomas que os pais já estão acostumados a lidar após as vacinas em geral”.
“Não podemos perder crianças por uma doença imunoprevenível”
Para Daniella Moore, além da segurança das vacinas contra a Covid-19 em crianças, é indispensável que os pais reflitam sobre a importância de a população infantil receber essa imunidade. “Elas precisam se vacinar e muito. Se nós compararmos as mortes de crianças e adolescentes por Covid-19 com as de adultos (especialmente com as de idosos) elas vão sempre parecer proporcionalmente baixas, mas a verdade é que essa faixa etária também fica grave e, inclusive, pode vir a óbito. Então, não temos dúvida de que elas precisam da vacina, não podemos perder crianças por uma doença imunoprevenível”.

É importante que todas as pessoas envolvidas com crianças e adolescentes, incluindo os profissionais
do ambiente escolar, sejam devidamente imunizados / Foto: Reprodução Freepik
Retorno escolar
Os especialistas do IFF/Fiocruz, Daniella Moore e Marcio Nehab, também reforçam a necessidade desse grupo voltar a estudar na modalidade presencial. “O aprendizado em casa não é a mesma coisa, as crianças precisam da presencia física do professor, a escola é um ambiente onde elas modelam seu desenvolvimento psicossocial. Dados de todo o mundo refletem o prejuízo na saúde mental das crianças por esse isolamento prolongado, então não subestime a gravidade da Covid-19 nesse grupo e não minimize a capacidade da criança de aguentar tudo, pois elas estão sendo privadas dos encontros com os avôs, amigos, professores, e da escola por tempo demais”, argumenta Daniella.
Sobre esse tema, Marcio Nehab acrescenta. “Como estamos próximos do início da atividade escolar, talvez nem todas as crianças sejam vacinadas a tempo da retomada, por isso também que é fundamental que todas as outras pessoas acima de 12 anos envolvidas com crianças e adolescentes, incluindo os profissionais do ambiente escolar, sejam devidamente imunizados, sem esquecer de manter as outras medidas de prevenção, assim a tranquilidade e a segurança no retorno escolar vai ser maior”.
Contra as Fake News
Nesse contexto atual da pandemia, onde a presença da variante Ômicron ainda levanta muitas interrogações e contribui para a hesitação em torno da vacinação infantil, Daniella Moore orienta. “Se você receber alguma informação com alertas sensacionalistas sobre as vacinas contra a Covid-19, antes de compartilhar pesquise em sites confiáveis como o da Fiocruz, do IFF/Fiocruz, da OMS, o CDC, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), e a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), nesses portais você encontrará conteúdos verdadeiros, pois todos esses órgãos têm expertise de anos em doenças infecciosas e imunidade com vacinas. Então, fique seguro, você pode vacinar seu filho com tranquilidade, aproveite que a vacina está disponível e não hesite, não demore. Vamos proteger as nossas crianças”, finaliza a coordenadora do estudo VacinaKids.



