Agenda Laranja debate o documentário “Chega de Fiu Fiu”

A nona sessão da Agenda Laranja, realizada na quinta-feira (23/8), no Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), exibiu o documentário independente “Chega de Fiu Fiu”, lançado em maio de 2018, pelas diretoras Amanda Kamanchek Lemos e Fernanda Frazão, que retrata o dia a dia de três mulheres de diferentes regiões do país e como a violência de gênero está presente no espaço público urbano.

Nas edições do evento, são propostos temas importantes em prol da equidade de gênero e, este último encontro buscou ampliar a discussão do filme, na qual relata a história de Rosa Luz, de Brasília (DF), Raquel Carvalho, de Salvador (BA), e Teresa Chaves, de São Paulo (SP), expondo a intersecção entre racismo, machismo, sexismo e transfobia, que essas mulheres e muitas outras vivenciam diariamente no Brasil e no mundo.

O contexto do questionamento feito pelo filme "as cidades foram feitas para as mulheres?", resulta em debates e pesquisas, como a que foi realizada nos dias 29 e 30 de novembro de 2017 pelo Datafolha, com 1.427 mulheres entrevistadas de 16 anos ou mais. O estudo apontou que, quatro em cada dez mulheres brasileiras (42%) relataram já ter sofrido assédio sexual, principalmente na rua (29%) e no transporte público (22%).

Iniciando o debate, o pesquisador do IFF/Fiocruz e coordenador da Agenda Laranja, Marcos Nascimento, comentou que o assédio não é um medo infundado, é uma modalidade de violência contra as mulheres, muitas vezes naturalizada, sobretudo entre os homens, como uma cantada, um elogio. “Para eles, não necessariamente se configuraria como uma forma de violência, mas as mulheres têm seus corpos tocados, manipulados, com abordagens agressivas”, explicou ele.

Dando continuidade, a coordenadora da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB) Rio, Adriana Mota, informou que a AMB foi uma das instituições parceiras na elaboração da pesquisa e, posteriormente, no lançamento do documentário. “É importante dizer que esse filme é um projeto coletivo, com quase 1300 pessoas financiando de alguma forma, e não foram só mulheres que desembolsaram algum recurso para o filme acontecer”, afirmou ela.

Contando sobre o início do projeto, Adriana frisou que tudo começou a ganhar uma dimensão muito forte a partir de movimentos específicos, principalmente na rede social Facebook, com o lançamento das hastags, ferramenta de interação e busca, “meu primeiro assédio”, “meu amigo secreto” e “meu professor abusador”, onde apareceram milhares de relatos de mulheres contando qual era a sua memória mais remota de ter experimentado algum sentimento e ter identificado alguma situação de assédio, que aconteceu, em sua grande maioria, na infância. “Mesmo com pouca idade, elas já experimentavam o que é ter um corpo de mulher na nossa sociedade. Então, a quantidade e a riqueza de relatos, aliados a generosidade das mulheres que os compartilharam, fez com que o coletivo pensasse em outra maneira de aproveitar toda essa grande explosão de sentimentos e situações, que foram utilizadas no lançamento de um livro e, posteriormente, em um documentário”, destacou ela.

Para ela, o filme traz uma dimensão pouco pensada pelo feminismo, que é a questão do planejamento urbano, como o transporte e a iluminação, que não são feitos nem para pessoas, no geral, muito menos para a inserção das mulheres na cidade. “Não seria necessário explicar para as pessoas que, apesar da condução estar lotada a gente não deve tocar o corpo alheio, mas estamos em um nível de desigualdade e de consolidação de alguns conceitos do machismo e do patriarcado que é necessário, sim”, alertou ela.

A militante analisou que, ao nascer ou tornar-se mulher, é submetida a um sistema de opressão, que é extremamente bem constituído e contra o qual precisamos combater. Para as instituições de trabalho, ela indicou que devem ser criadas formas de acolhimento para as mulheres que tem ousadia falarem sobre isso. “Criem espaços de empoderamento para que as mulheres se sintam seguras e confortáveis para fazerem seus relatos. É necessário ter protocolos a serem seguidos para saber como lidar frente ao aparecimento de casos de assédios e abusos, porque a pior coisa é não ter uma resposta, ignorar o caso e nenhuma providência ser tomada. Não basta não ser um assediador, não podemos nos omitir frente a situações de violência”, avaliou ela.

Porém, a feminista ressaltou que nem sempre as vítimas tem coragem de buscar ajuda ou denunciarem, e que, nestes casos, são muito criticadas, mas salientou que há um componente paralisante que pode bloquear a mulher de adotar uma postura, aparentemente, simples. “Ser uma mulher empoderada, que sabe dos direitos, que já ocupou cargos, que tem artigos publicados, livros, reconhecimento do feminismo, não me faz absolutamente diferente de nenhuma mulher. Diante de uma desigualdade de gênero, eu também consigo ser silenciada e violentada e, às vezes, me sinto completamente impotente diante de algo que acontece comigo. Curiosamente, eu consigo ser mais reativa a algo que acontece com outras pessoas, do que algo que acontece comigo, em particular”, pontuou ela.

Adriana afirmou que, os processos que aprisionam mulheres em situações de violência são delicados e a intervenção de políticas públicas deve ser muito bem estudada, planejada e trabalhada para que não fiquem impunes. Para ela, não será no sistema judiciário e no Ministério Público, lugares onde existe um recorte de raça, de classe e de gênero, que conseguiremos ver uma reparação e uma mudança dos padrões de relacionamento entre os homens e as mulheres. “Criminalizar tudo ou buscar tipos penais para todas as formas de violência que nós vivemos, talvez não seja a principal estratégia que o feminismo deva adotar hoje. Nós não podemos apostar todas as fichas do feminismo no sistema de justiça, criminal e na segurança pública, porque esses não são espaços de conforto para as mulheres. Hoje, me interessa menos punir os homens, me interessa mais descontruir o patriarcado, as desigualdades de gêneros que são perpetuadas em vários espaços, inclusive no sistema de justiça e no criminal”, enfatizou ela.

Além de frisar que no Brasil, e em vários outros países, há uma perseguição à palavra gênero, o que impossibilita de trabalhar essa questão na escola e na formação dos jovens, mas apostando na mobilização dos próprios alunos que, segundo ela, já estão problematizando gênero há muito tempo por um desejo deles, a militante atentou também para o fato de que, as mulheres estão conversando sobre a temática, mas os homens não, e eles precisam fazer isso, conversar com outros homens e mulheres, pois isso é bom para todos. “Precisamos colocar as pessoas para pensar, se a gente quer diminuir a violência contra as mulheres, o assédio, precisamos discutir a desigualdade de gênero, quais são os modelos de masculinidade que tem trazido desconforto para as mulheres e para os homens, e discutir como descontruir o patriarcado com as nossas perspectivas de que é possível, sim, uma convivência entre homens e mulheres que não seja pautada na violência, na opressão e na morte”, encerrou ela.

Último integrante da mesa de debate, o assistente social do IFF/Fiocruz e doutorando da Ufrj Daniel Campos, contou que, ao ver o filme, ficou pensando o quão violador é para as mulheres não poder transitar pelos espaços públicos, por não terem a segurança do próprio corpo, e sobre a necessidade de levar o debate para além dos ambientes acadêmicos, pois alegou que, o problema do estupro e do assédio é cultural, é a ponta do iceberg que está no mundo inteiro. “Através da grande mídia vemos o tempo todo casos de feminicídio acontecendo, e não é a roupa, o lugar e o transporte utilizado, é a cultura que a gente precisa, de alguma maneira, enfrentar”, comentou ele.

O assistente social dividiu com os presentes que, recentemente, fez uma pesquisa sobre masculinidade em um congresso de pesquisadores nacionais e internacionais, e se surpreendeu por não ter achado nenhum trabalho do serviço social que discuta o tema. “Como que uma categoria que está pautada para atender situações de risco e vulnerabilidade nos territórios onde as famílias residem não discutir racismo, violência de gênero e masculinidade? Isso responde muito da lacuna que temos para, de fato, conseguirmos acabar com essa cultura patriarcal e esse machismo que acompanha gerações”, alertou ele.

Para concluir, Daniel analisou que, a vida em sociedade está pautada por estereótipos, pelos papéis de gênero, esperando determinado tipo de comportamento que, às vezes, sem nem pensar, somos levados a reproduzir um preconceito ou discurso machista. “O tempo todo precisamos fazer essa mediação e trabalhar esses questionamentos no nosso convívio. Não podemos nos calar”, finalizou ele.

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