Especialista do IFF/Fiocruz explica como prevenir autolesões e comportamento suicida entre adolescentes

 

O comportamento suicida e as autolesões não suicida podem ser compreendidos como manifestações de sofrimento psíquico e, em muitos casos, estar associados a diferentes formas de violência. De acordo com o Portal de Boas Práticas do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), a prevenção das diversas formas de violência e do sofrimento mental contribui para a redução dos riscos relacionados ao comportamento suicida e às autolesões.

Dados recentes reforçam a urgência desse debate. Divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em março de 2026, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, principal levantamento nacional sobre saúde, hábitos e comportamentos de adolescentes de 13 a 17 anos, revelou indicadores preocupantes. Segundo o estudo, 18,5% dos estudantes afirmaram ter considerado que a vida não valia a pena ser vivida nos 30 dias anteriores à pesquisa; 32% relataram ter sentido vontade de se machucar propositalmente nos 12 meses anteriores; e o percentual de adolescentes que declararam sofrer bullying aumentou de 23%, em 2019, para 27,2%, em 2024.

Diante desse cenário, convidamos o pediatra e psiquiatra da infância e adolescência do IFF/Fiocruz, Orli Carvalho, para discutir o tema. Na entrevista, o especialista aborda os impactos das violências e do sofrimento psíquico na saúde mental de crianças e adolescentes, além de apresentar sinais de alerta, fatores de proteção e estratégias de prevenção.

Entrevista

  1. O que são autolesões e como elas se diferenciam do comportamento suicida? Toda autolesão é uma tentativa de suicídio?

Orli: De forma simplificada, podemos compreender que tanto as autolesões não suicida quanto o comportamento suicida são expressões de violência autoprovocada e que carregam sofrimento emocional. Há tentativas de separação desses dois complexos fenômenos, uma vez que clinicamente tendem a ser diferentes, ainda que muitas vezes sobrepostos.

Por comportamento suicida, entendemos um espectro que se inicia com a ideação suicida, passando pelas ameaças, tentativas de suicídio e, por fim, o suicídio consumado. As autolesões não suicida seriam lesões provocadas pelo sujeito, em si mesmo, sem que haja previamente um desejo de morrer.

Assim, buscamos saber se diante de uma lesão autoprovocada, essa foi precedida pela ideação suicida, sendo assim, categorizada como uma tentativa de suicídio; ou se não houve ideação suicida: sendo assim, classificada como uma autolesão não suicida.

Na prática clínica, buscamos essa diferenciação – por vezes simples, por vezes complexa. A literatura tende a desagregar esses dois fenômenos, ainda que haja autores que os mantenham agregados.

 

  1. Quais fatores ajudam a explicar o aumento dos casos de sofrimento psíquico entre crianças e adolescentes, e o que pode ser feito para preveni-los?

Orli: Um desfecho complexo não deve ter suas justificativas simplificadas para chegarmos a uma resposta única. Assim, importante algumas considerações: um olhar mais atento para as questões emocionais infantojuvenis; maior garantia de direitos para crianças e adolescentes que apresentam dificuldades; maior empenho na inclusão de pessoas com deficiências - que implica num olhar mais cuidadoso para as diferenças e para as múltiplas formas de sofrimento; maior sobrevida diante de condições clínicas e cirúrgicas graves. Junto a isso, as rápidas transformações tecnológicas, que demandam adaptações em tempo real e ajustes difíceis para toda a sociedade. As mudanças seriadas no padrão alimentar, no sono, no lazer em espaços abertos e convívio com natureza, assim como um meio ambiente mais degradado, violento e poluído. E o impacto das diferentes formas de violência.

Importante o destaque que a transição epidemiológica experimentada na pediatria também tem semelhanças com o visto em adultos e idosos, onde transtornos mentais têm maiores taxas de ocorrência hoje do que no passado.

Cada ponto desse incompleto e diverso grupo de razões, pode se transformar num elemento de prevenção. Numa argumentação que não apenas profissionais de saúde mental devem se preocupar e intervir nessa temática.

 

  1. Quais sinais podem indicar que uma criança ou adolescente está enfrentando sofrimento emocional e que costumam preceder episódios de autolesão ou ideação suicida?

Orli: Se entendermos que as violências autoprovocadas são expressões de sofrimento emocional, assumimos que podem ocorrer diante da dor e mal-estar psíquicos. Assim, os cuidadores devem se atentar aos diferentes sinais que representem esse mal-estar; podem ser mudanças de humor, alterações de hábitos – sono, apetite, autocuidados -, recusa a atividades cotidianas, queda do rendimento escolar, agressividade e irritabilidade, perda de prazer e desinteresse em práticas que traziam felicidade, por exemplo. Tais indícios não sinalizam a ocorrência obrigatória de autolesões suicida ou não; mas de que há mudanças no bem-estar. O que pode ser grave ou não, mas que deve ser abordado. Desse modo, pequenos ajustes e detalhes no cotidiano, podem fazer grandes diferenças e evitar que tal sofrimento aumente.

 

  1. Quando os responsáveis devem procurar ajuda profissional?

Orli: Professores, treinadores, líderes religiosos e comunitários, juntamente com os familiares, devem estar atentos a mudanças comportamentais e ao que vem ocorrendo no dia a dia das crianças e adolescentes. Diante de algum mal-estar ou desconfiança, devem conversar com eles, procurando entender o que está ocorrendo. É possível que tal abordagem, alivie parte desse sofrimento. Não aliviando, convém questionar os profissionais de saúde que já assistem essas crianças e adolescentes se seria o momento de ajuda e abordagem psicoterapêutica e, posteriormente, ajuda médica.

 

  1. Como a família, escola e profissionais de saúde podem abordar esse tema sem julgamentos ou preconceitos, contribuindo para a identificação precoce e o acolhimento de crianças e adolescentes em sofrimento?

Orli: Gosto de defender que a saúde mental é um elemento que constitui a vida das crianças e adolescentes, de forma que o bem-estar emocional deve estar no horizonte de todos que cuidam e zelam por esses sujeitos. Isso significa pensar que a saúde mental não fica restrita ao setting clínico, sendo uma responsabilidade de toda sociedade.

Posto isso, assumimos que a prevenção de todas as formas de violência e a promoção do bem-estar – através de educação de qualidade, segurança física e emocional, atividade física, sono, lazer, moradia, direitos humanos etc. – são elementos que reduzem o sofrimento psíquico; sendo assim, os primeiros elementos a serem garantidos a esse grupo.

Diante da busca dessa garantia, entendermos que abordar diretamente esse tema é importante. Reconhecer que o sofrimento emocional pode existir, que muitas pessoas passam por isso; e que assim, o reconhecimento e a nomeação desses sentimentos não são fraquezas morais. Essa contextualização tende a atenuar os preconceitos associados ao tema, facilitando o seu reconhecimento.

 

  1. De que forma situações de violência, como o bullying e o cyberbullying, podem afetar a saúde mental de crianças e adolescentes?

Orli: Bullyng e cyberbullying são expressões sistemáticas de violência e, como outras formas de violência, produzem sofrimento emocional e predispõem ao surgimento de mais violência – autoprovocada ou não. A sistematização e a capilaridade dessas formas de violência assumem gravidade por ocorrerem em espaços e contextos muito importantes no cotidiano de crianças e adolescentes, marcadamente perpetrado por seus pares. O que facilita ambiente de exclusão e intenso sofrimento.

 

  1. “Falar sobre suicídio pode incentivar alguém a cometer o ato”, esse é um dos principais mitos que ainda dificultam a compreensão do tema? O diálogo aberto sobre saúde mental pode ajudar na prevenção?

Orli: Ainda existe essa ideia – que é errada! Uma conversa ética e respeitosa sobre o tema, levando em consideração a idade e desenvolvimento desse sujeito, com questionamentos responsáveis e de fato interessados na ajuda, proporcionam um ambiente seguro, onde mais facilmente o assunto pode ser abordado.

Assim, o falar sobre suicídio não vai incentivar o ato, mas permitir uma boa, ainda que difícil, conversa sobre o tema – e tal conversa pode permitir a busca de ajuda e por caminhos de proteção. Muitos evitam o assunto por não saberem como manejá-lo; porém, o silenciamento do tema não o enfraquece. Pelo contrário, amplifica o seu tabu, dificultando ainda mais o pedido de ajuda. O diálogo aberto não naturaliza o tema, necessariamente, mas o coloca como algo inerente ao humano; que pode ser experimentado por todos nós.

 

  1. Como o IFF/Fiocruz atua com a temática?

Orli: Podemos pensar três frentes de atuação institucional, neste momento.

A partir de minha atuação clínica no Ambulatório de Adolescentes do IFF/Fiocruz, existe o atendimento psiquiátrico para os adolescentes que estão em seguimento clínico ou cirúrgico; ou seja, adolescentes que estão em tratamento no IFF/Fiocruz, dentro do perfil da instituição, podem ser direcionados para essa especialidade. Crianças e adolescentes internados no IFF/Fiocruz, diante de sintomas de sofrimento emocional mais grave ou da ocorrência de violência autoprovocada também recebem ajuda através da Interconsulta Psiquiátrica, realizada por mim.

Outra frente, é a supervisão e treinamento de residentes de pediatria e multiprofissionais no campo da saúde mental infantojuvenil; residentes da Terapia Ocupacional e Psicologia fazem estágios no Ambulatório de Adolescentes. Além disso, os médicos residentes de Pediatria do IFF/Fiocruz e de outros hospitais do Rio de Janeiro recebem treinamento no ambulatório, numa perspectiva de ampliação de sua atuação clínica e compreensão que a integralidade em saúde deve abordar a subjetividade e bem-estar emocional, sendo violência e saúde mental tópicos de extrema relevância clínica e epidemiológica.

Supervisão e treinamento de residentes

Além disso, através do ensino e da pesquisa. A publicação de materiais e artigos científicos, em parceria com professores do Programa de Pós-graduação da Saúde da Criança e da Mulher - onde estou como docente colaborador -, tem sido uma outra forma de atuação institucional. Nesse domínio, destacamos a participação no 27º Congresso Internacional da IACAPAP (International Association for Child and Adolescent Psychiatry and Allied Professions) - que ocorreu em Hamburgo/Alemanha no início de julho de 2026.

Apresentei parte do meu doutorado, numa sessão com exposições orais sobre comportamento suicida e autolesões em crianças e adolescentes. Especificamente, discuti a relação entre diferentes formas de violência sofridas na infância e adolescência e a ocorrência de ideação suicida, tentativa de suicídio e autolesões não suicida na juventude. O artigo publicado pode ser lido integralmente - em livre acesso.

Orli Carvalho no 27º Congresso Internacional da IACAPAP

Serviço

Diante de situações de sofrimento psíquico, comportamento suicida ou autolesões, é fundamental buscar apoio. O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece atendimento gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia, enquanto os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) disponibilizam acolhimento e acompanhamento especializado pelo SUS.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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