A Área de Atenção Clínico-cirúrgica à Mulher do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) realizou, nos dias 10 e 17/10, a VI Jornada da Área de Atenção Clínico-Cirúrgica à Mulher. Esta edição teve como tema central a “Implementação da rede de atenção à saúde da população trans: estratégias e desafios para gestores, profissionais e serviços de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS)”.
Nesses dois dias, o evento abordou, de forma remota através do canal de YouTube do Portal de Boas Práticas do Instituto, as políticas públicas, os desafios de gestão e as especificidades do cuidado clínico da população trans no contexto do SUS no Rio de Janeiro.
“O estado da arte da implementação da Política de atenção especializada à saúde da população trans” foi o tema do primeiro dia, que focou no panorama nacional e estadual da implementação da política, com a participação de gestores e especialistas:
- Política Nacional: Foi confirmada a estagnação da esperada revisão da portaria ministerial do Programa de Atenção à Saúde da População Trans (Pop Trans), que está em "análise interna" no Ministério da Saúde, o que se traduz em um atraso na flexibilização necessária para habilitar novos serviços;
- Rede Habilitada: Foi apresentado um panorama que mostra a concentração de serviços: 11 na modalidade hospitalar e 23 na modalidade ambulatorial em nível nacional, com a maioria no Sudeste, Sul e Nordeste;
- Regulação no Rio de Janeiro (SES/RJ): A regulação estadual (Reúne) demonstrou a grave dificuldade de acesso, com uma fila de 1.277 pacientes aguardando para iniciar a hormonização, e um tempo médio de espera de 666 dias (cerca de 22 meses);
- Barreiras e Custos: Especialistas do serviço de ponta (HUPE/UERJ) apontaram que a principal barreira é a transfobia institucionalizada, citando o subfinanciamento e o engessamento da portaria de 2013, que impede o acesso a procedimentos como mastectomia e mamoplastia para homens e mulheres trans no SUS.
Profissionais do Instituto e convidados no primeiro dia do evento (10/10/25)
Já no segundo dia, o tema “Considerações e especificidades do cuidado em rede da população trans no estado do Rio de Janeiro” foi abordado, ressaltando questões relevantes sobre o atendimento técnico e humanizado para a população trans:
- Atenção Ginecológica: O rastreamento de câncer de colo de útero deve ser guiado pela presença de colo, independentemente da identidade de gênero. Foi destacada a importância do teste molecular (HPV) e da autocoleta como estratégias para reduzir o desconforto e a disforia do exame pélvico em homens trans;
- Hormonização Assistida:
Objetivos: O tratamento com o uso de hormônios (testosterona para homens trans; estrogênio e antiandrogênio para mulheres trans) é uma forma eficaz de aliviar a disforia de gênero, o mal-estar causado pela incongruência entre a identidade de gênero e as características corporais. Isso contribui significativamente para a saúde mental e o bem-estar físico e psicológico da pessoa;
Riscos: Aumenta o risco de câncer de mama em mulheres trans (comparado a homens cis), e riscos tromboembólicos (principalmente com estrogênio oral) e eritrocitose (com testosterona injetável);
Desafios: A automedicação e o uso de hormônios sem acompanhamento são grandes riscos, reforçando a necessidade de aumentar o número de serviços habilitados.
- Cirurgias de Redesignação:
Vaginoplastia: A técnica mais comum é a inversão de pele peniana, com dilatação pós-operatória essencial;
Cirurgias FTM: Incluem metoidioplastia e faloplastia, com a opção de vaginectomia;
Cuidado Pós-Cirúrgico: Foram destacados o cuidado humanizado e o refinamento estético, além da necessidade de acompanhamento de longo prazo e liberação sexual.
- Saúde das Mamas: O risco de câncer de mama é maior em mulheres trans usuárias de hormônio do que em homens cis, e menor em homens trans do que em mulheres cis. O rastreamento (mamografia) deve ser feito em homens trans com mamas e em mulheres trans com mais de 5 anos de hormonioterapia, seguindo o protocolo de mulheres cis;
- Gestação em Homens Trans: Foi ressaltado que a testosterona não é um contraceptivo. O pré-natal deve ser inclusivo, com linguagem neutra, respeitando a identidade de gênero da pessoa gestante e de seus parceiros, e o profissional deve orientar sobre a suspensão da testosterona e os riscos de automedicação.
Profissionais do Instituto e convidados no segundo dia do evento (17/10/25)
Responsável pela organização da Jornada, a assistente social da Área de Atenção Clínico-Cirúrgica à Mulher do IFF/Fiocruz, Ana Lúcia Tiziano, comenta sobre a escolha da temática deste ano, que contou com a participação de usuário.
“Eu quero ressaltar a importância de pautarmos esse tema, considerando as necessidades e demandas de saúde trazidas pela população trans, a busca pela concretização do direito à saúde, dos direitos reprodutivos e as lacunas existentes na oferta assistencial à saúde da população trans, tanto em nível ambulatorial quanto em nível hospitalar. Quando nos referimos especialmente, mas não somente, ao processo transexualizador e ao cuidado mais ampliado dessa população no país, percebemos a necessidade de conhecer melhor, nos aproximarmos mais dessa temática e sermos mais propositivos. Começamos a fazer leituras de documentos ministeriais, mas também procuramos o que estava sendo produzido do ponto de vista científico a respeito da atenção à população trans. Percebemos, com isso, que existem muitas lacunas, muitas perguntas a serem respondidas com relação às necessidades de saúde, aos desdobramentos que possam ter algumas práticas assistenciais relacionadas ao processo transexualizador, por exemplo, e a respeito da portaria ministerial vigente, percebemos que engessava muito a entrada de novos serviços que poderiam estar contribuindo com algum recorte da atenção para essa população”.
Os gestores da Área de Atenção Clínico-Cirúrgica à Mulher do IFF/Fiocruz, Rodrigo Cruz e Raquel Fonseca, celebram a importância da Jornada anual promovida pela Área e o sucesso desta edição.
“Nos últimos anos, o SUS vem avançando na formulação de políticas voltadas à população trans, com destaque para a elaboração do Programa de Atenção Especializada à Saúde da População Trans (PAES-Pop Trans), com a missão de ser um marco na ampliação e qualificação do cuidado especializado. Mas, como sabemos, transformar diretrizes e realidades é um caminho árduo e longo. Exige formação e sensibilização das equipes, estrutura adequada dos serviços, fluxos de referência e contrarreferência bem definidos. No Rio de Janeiro, temos assistido experiências que demonstram ser possível avançar quando há integração entre equipes, escuta qualificada e acolhimento respeitoso. Mas, por outro lado, persistem desafios concretos: acesso desigual, longas filas para procedimentos, falta de padronização de protocolos clínicos e situações de discriminação que ainda afastam as pessoas trans do cuidado que lhes é de direito. O IFF/Fiocruz, como Instituto Nacional de referência, tem uma história marcada pela defesa da vida e pela promoção do cuidado integral à saúde. Discutir hoje a saúde da população trans é ampliar essa missão, a de cuidar das pessoas em sua diversidade, com respeito, ciência e sensibilidade”, ressalta Rodrigo Cruz.
“Nossa jornada, ao longo dos anos, tem sido um espaço potente de troca de saberes, reflexão e construção coletiva em torno do cuidado da saúde das mulheres, das populações historicamente invisibilizadas. Neste ano, nos reúne a um tema muito relevante e urgente para ser discutido, um público que nos traz situações diariamente e que a gente vê que a rede não está preparada para fazer essas conversas e para estar aberta a acolhê-los. Discutir esse tema é reafirmar o compromisso do SUS com seus princípios de universalidade, integralidade e equidade, reconhecendo que o direito à saúde deve alcançar todas as pessoas com respeito às suas identidades, histórias e necessidades específicas. Sabemos que implementar uma rede de cuidado verdadeiramente inclusiva exige muito mais do que protocolos: exige escuta, articulação intersetorial, formação continuada e compromisso ético e político com a vida. Que essa jornada seja um espaço fértil para novas reflexões, como sempre foi, aprendizados e conexões, e que dela saiam propostas concretas para fortalecer a rede de atenção à saúde à população trans em nosso estado”, refere Raquel Rodrigues.
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