Estudo do IFF/Fiocruz faz mapeamento dos genes associados às cataratas pediátricas

 O Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), em parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), preparam estudo que tem como objetivo o mapeamento dos genes associados à catarata infantil familiar sindrômica (em criança portadora de uma síndrome de qualquer natureza) e não sindrômica (em criança sem síndrome) e a avaliação do impacto no prognóstico, cuidado, aconselhamento genético e realização de uma análise de custos deste mapeamento sob a perspectiva do Sistema Único de Saúde (SUS) em amostras das populações do Rio de Janeiro e de São Paulo, tudo sob o financiamento do Programa Nacional de Apoio à Atenção da Saúde da Pessoa com Deficiência (PRONAS/PCD).

Chama-se catarata a opacificação (espécie de nuvem opaca) na lente natural do olho (o cristalino), sendo mais comum nos idosos, mas que pode surgir em qualquer idade, podendo estar presente, inclusive, desde o nascimento.

Para entender as vantagens da pesquisa, a oftalmologista pediátrica do Instituto e coordenadora do estudo, Andrea Zin, foi consultada e contou que a doença é uma das principais causas de cegueira infantil:

ENTENDENDO AS CATARATAS PEDIÁTRICAS


O diagnóstico precoce da catarata infantil permite o tratamento cirúrgico precoce, que é fundamental para o bom prognóstico visual funcional

Quais as causas da catarata infantil?

A.Z.: A catarata que acomete a população pediátrica pode ser dividida em catarata congênita: quando aparece ao nascimento ou nos primeiros meses de vida, e catarata de desenvolvimento ou pediátrica: quando aparece na infância, normalmente após os 6-12 meses.

Em cerca de 72% dos casos, as cataratas congênitas e pediátricas aparecem isoladas e sem uma causa definida, sendo, então, denominadas de idiopáticas. Em outros casos, diferentes fatores etiológicos podem estar implicados na catarata pediátrica e ela pode ser um sinal sentinela de doenças sistêmicas (aquelas que afetam todo o corpo humano, ao invés de apenas um órgão ou região). Por exemplo, podem-se citar como causas: doenças infecciosas (rubéola, toxoplasmose, Zika vírus), doenças metabólicas (galactosemia, doença de Fabry, doença de Wilson), disgenesias do segmento anterior (Síndrome de Peters), malformações oculares (persistência da vasculatura fetal, microftlalmia), doenças renais (Síndrome de Lowe, Síndrome de Alport), doenças genéticas (Trissomia dos cromossomos 21, 13 e 18, doença de Hallerman-Streiff) e traumas.

Como é feito o diagnóstico da catarata em recém-nascidos?

A.Z.: Clinicamente, a triagem das cataratas congênitas e infantis ocorre por meio do Teste do Reflexo Vermelho, que avalia a transparência dos meios oculares. Este teste é feito pelo pediatra no recém-nascido, antes da alta da maternidade e ao longo das consultas de puericultura dos três primeiros anos. Caso o pediatra observe uma alteração da transparência do Teste do Reflexo Vermelho, considerando o resultado alterado ou suspeito, encaminhará o paciente para um oftalmologista. O especialista diagnosticará a presença (ou não) da catarata por meio do exame da biomicroscopia em lâmpada de fenda, podendo, neste exame, caracterizar a catarata em relação ao tamanho, forma, associação com outras malformações oculares, entre outras.

Quais os dados de crianças com cataratas congênitas no Brasil e no mundo?

A.Z.: No mundo, estimam-se que entre 8,3% e 25% dos casos de cataratas congênitas sejam de origem hereditárias, obedecendo a um padrão de herança genética mendeliana (os princípios relacionados à transmissão hereditária das características de um organismo a seus filhos); comumente o padrão autossômico dominante: 89% (quando uma certa doença aparece em todas as gerações de uma família, até onde os familiares podem se recordar); mas também autossômico recessivo: 7% (quando para desenvolver a doença é necessário ter herdado uma cópia do gene defeituoso de cada um dos pais. Se a pessoa herdar uma cópia do gene defeituoso de apenas um deles e um gene normal do outro, ela será apenas portadora); e ligado ao cromossoma X: 2-10% (um dos cromossomos sexuais do ser humano).

Em um trabalho brasileiro, de Tartarella et al, 47,4% dos pacientes apresentaram cataratas bilaterais (nos dois olhos) e 52,6% unilaterais (em apenas um olho). Em relação às cataratas bilaterais, aproximadamente 30% das sem acometimento sistêmico são hereditárias e de herança dominante. Provavelmente, o número de cataratas com potencial de transmissão hereditária é subestimado, pois muitas crianças com cataratas esporádicas podem apresentar mutações dominantes de novo, podendo passar a transmitir tais variantes a seus descendentes.

Quais os fatores de risco de uma criança desenvolver catarata ao longo da infância?

A.Z.: Uma criança pode adquirir a catarata de desenvolvimento ou pediátrica. As causas são as mesmas da congênita. Contudo, cabem ressaltar dois importantes fatores de risco: o trauma, que costuma ser mais prevalente na infância e adolescência, e o uso inadvertido e sem acompanhamento oftalmológico de medicações a base de corticoides, sobretudo via ocular tópica, mas também nas vias nasal e sistêmica.

A catarata infantil é reversível? Qual o tratamento indicado?

A.Z.: A catarata congênita e a infantil/pediátrica não são reversíveis. As cataratas que obstruam o eixo visual podem ser removidas por meio de cirurgia e acompanhamento oftalmológico para uso de correção óptica e eventualmente tampão. A visão da criança se desenvolve até em torno dos 6-7 anos, e os primeiros anos de vida são os mais importantes nessa janela.
Quanto mais precocemente forem realizadas a triagem, o diagnóstico e o tratamento, melhor o prognóstico visual funcional da criança.

Hoje é possível diminuir as chances da criança apresentar catarata?

A.Z.: Sim. As cataratas congênitas de etiologia infecciosa, como a Toxoplasmose, Toxocaríase, Zika vírus e Rubéola, são preveníveis. Uma vez que se reduzam as taxas de infecção materna, por exemplo: mediante vacinação contra Rubéola para mulheres em idade fértil, com uso de repelentes, reduzindo o consumo de alimentos crus e mal lavados; e/ou com a diminuição da transmissão fetal, por exemplo: no caso do uso de espiramicina na Toxoplasmose materna.

As de causa genética hereditária também podem ser evitadas, ou, caso não evitadas, rapidamente tratadas. Uma vez que se realize a confirmação da herança e do tipo de mutação por meio de testes moleculares, pode-se ter mais um substrato para o aconselhamento genéticos adequado.

A confirmação da herança e do tipo de mutação, são parte do escopo do estudo CATBRA, que busca identificar os genes e suas mutações envolvidos na catarata pediátrica familiar por meio do diagnóstico molecular. Ademais, o diagnóstico precoce da catarata genética permite também o tratamento cirúrgico precoce, que é fundamental para o bom prognóstico visual funcional.

O PROJETO CATBRA

O que significa CATBRA?

A.Z.: O termo CATBRA veio da união do prefixo CAT, referindo-se a catarata, e BRA, de Brasil.
A intenção do CATBRA é representar um painel genético brasileiro para cataratas pediátricas familiares no Brasil. A inspiração se deu a partir do termo Cat-Map, que é um banco de dados on-line de genes e loci (local determinado que um gene ocupa em um cromossomo), concernentes a cataratas familiares ou adquiridas, listando mais de 100 genes relacionados com o desenvolvimento das cataratas pediátricas. Daí surgiu nossa inspiração para o projeto “CATBRA: uma abordagem brasileira para avaliação da genômica da catarata infantil familiar”.

Em que fase se encontra o estudo?

A.Z.: Foi realizado um projeto piloto de avaliação das causas genéticas de um grupo reduzido de famílias com história de catarata hereditária. Crianças com catarata infantil e seus familiares, acometidos ou não por catarata precoce, foram avaliados clinicamente por médicos oftalmologistas e geneticistas. Análises de amostras de sangue destes pacientes foram feitas em busca de mutações em genes causadores de catarata infantil, além de uma publicação.

O projeto CATBRA poderá contribuir na prevenção da doença através da genética?

A.Z.: O projeto CATBRA, ao realizar o mapeamento dos genes associados à catarata infantil/pediátrica familiar sindrômica e não sindrômica, pretende identificar os genes mais frequentemente envolvidos na etiologia dessa doença na população brasileira. A partir desses resultados genéticos, pretende-se realizar uma associação com as alterações clínicas das famílias, realizando a denominada correlação genotípica-fenotípica. Assim, será possível não somente aumentar o conhecimento a respeito dos genes envolvidos na gênese da catarata pediátrica familiar, mas também o entendimento sobre a evolução da doença, prognóstico visual do paciente, risco de transmissão para filhos, perspectiva de terapias gênicas, bem como sensação de validação e pertencimento com um diagnóstico mais personalizado.

Paralelamente a isso, pretende-se estimar os custos dos testes genéticos envolvidos no diagnóstico molecular da doença, identificar e comparar os itinerários diagnósticos clínico e molecular percorridos pelos pacientes e suas famílias, e, finalmente, estimar o impacto orçamentário incremental do diagnóstico combinado (molecular e clínico) no SUS. Assim, esta análise da viabilidade econômica do diagnóstico molecular da catarata pediátrica familiar pode fornecer evidência científica para subsidiar a tomada de decisão relacionada à sua implementação pelos gestores responsáveis no âmbito do Sistema Único de Saúde.

Qual é a próxima fase do projeto?

A.Z.: A partir do que foi testado e aprendido no projeto piloto, a próxima fase é a expansão do projeto para um número maior de famílias. Na literatura médica, há pouca informação acerca das mutações e genes causadores de catarata infantil, principalmente na população brasileira. A intenção é multiplicar o conhecimento nesta área a partir da avaliação de um número maior de famílias.

 

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