Adolescências no cenário atual da sociedade brasileira

Como consta na Caderneta de Saúde do Adolescente, versões menino e menina, desenvolvida pelo Ministério da Saúde, "se você tem entre 10 e 19 anos de idade, está vivendo um tempo rico em descobertas e mudanças: a adolescência". Por ser uma fase importante e complexa da vida, cheia de questões, o documento foi feito para apoiar esse grupo no processo de autodescoberta e autocuidado, auxiliando os adolescentes e jovens a acompanharem as transformações que ocorrem em seu corpo, os cuidados necessários, a se informar sobre os seus direitos, além de dicas de como evitar doenças.

A Caderneta informa que para o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), Lei nº 8.069/90, “adolescente é a pessoa que tem entre 12 e 18 anos de idade. Porém, os serviços de saúde consideram a adolescência a faixa etária entre 10 e 19 anos, pois, a partir dos 10 anos, iniciam-se várias transformações no seu corpo, no seu crescimento, na sua vida emocional, social e nas suas relações afetivas”.

O ECA, que este ano completou 31 anos, é o principal instrumento normativo do Brasil sobre os direitos da criança e do adolescente. O Estatuto defende, sem distinção de etnia, gênero, nacionalidade, classe social, orientação religiosa, política ou sexual, ou associação ou pertencimento a qualquer minoria ou status, “a proteção integral, na qual crianças e adolescentes são vistos como sujeitos de direitos, em condição peculiar de desenvolvimento e com prioridade absoluta. Também reafirma a responsabilidade da família, sociedade e Estado de garantir as condições para o pleno desenvolvimento dessa população, além de colocá-la a salvo de toda forma de discriminação, exploração e violência”, como determina o artigo 227 da Constituição Brasileira de 1988.

Serviços recomendados

De acordo com o Ministério da Saúde, “as vulnerabilidades produzidas pelo contexto social e as desigualdades resultantes dos processos históricos de exclusão e discriminação determinam os direitos e as oportunidades de adolescentes e jovens brasileiros”. A atenção integral à saúde desse grupo, que, em muitos casos, lida com problemas como a violência em geral, exploração sexual, a gravidez na adolescência, dentre outras, “apresenta-se como um desafio, por tratar-se de um grupo social em fase de grandes e importantes transformações psicobiológicas articuladas a um envolvimento social e ao redimensionamento da sua identidade e dos novos papéis sociais que vão assumindo”.

Por isso, o Ministério da Saúde preconiza os seguintes serviços nas unidades de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS): ser atendido mesmo se estiver desacompanhado dos pais ou responsáveis - Nota Técnica Nº 04 de abril de 2017; receber orientações sobre cuidados à saúde e saúde bucal; receber orientações sobre saúde sexual e reprodutiva; realizar testes rápidos que identificam Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST’s), Aids, etc.; receber tratamento de IST’s, Aids, etc.; realizar teste de gravidez; receber acompanhamento pré-natal, parto e pós parto; e receber todas as vacinas que necessita em sua faixa etária (HPV, meningocócica C, hepatite B, entre outras). Como complemento às consultas dos adolescentes, é preconizada a distribuição gratuita da caderneta de Saúde de Adolescentes; preservativos (masculino ou feminino); métodos contraceptivos (pílulas anticoncepcionais, anticoncepcionais injetáveis, DIU etc.); e contracepção de emergência (pílula do dia seguinte); e outros medicamentos.

Vacinação contra a Covid-19

A vacina é a melhor aliada na proteção contra uma variedade de doenças graves e suas complicações, que podem até levar à morte, como é o caso da Covid-19. A vacinação de adolescentes contra o Coronavírus no Rio de Janeiro teve início no dia 26 de agosto de 2021 com a vacina da Pfizer, única liberada, até o momento, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para imunizar esse público (mais de 12 anos) - acompanhe o calendário de vacinação pelo Instagram da Secretaria Municipal de Saúde.

Em agosto deste ano, a Fiocruz atualizou o documento sobre retorno às atividades escolares. A nova versão, atualizada e ampliada, reúne um conjunto de orientações e recomendações a respeito das atividades escolares em um cenário que ainda é de pandemia. Um dos destaques do documento é que o Grupo de Trabalho (GT) da Fiocruz aponta que a vacinação de jovens de 12 a 18 anos pode significar um retorno mais rápido à prática de esportes e outras atividades e a uma socialização mais completa, incluindo o fortalecimento das relações intergeracionais na família e na comunidade.


Confira no Calendário Nacional de Vacinação, divulgado pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI), as vacinas indicadas por faixa etária. Para atualizar a sua caderneta, basta procurar a Unidade de Saúde mais próxima


Alimentação e prática de atividades físicas

O isolamento social, tido como uma das medidas para evitar a propagação da Covid-19, tem provocado o aumento do estresse, da ansiedade e do sedentarismo para adolescentes e jovens, dificultando ou alterando a prática de atividades físicas e os hábitos alimentares.

As notificações do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional, de 2019, revelam que 18% dos adolescentes apresentam sobrepeso; 9,53% são obesos; e 3,98% têm obesidade grave. Segundo o Ministério da Saúde, crianças acima do peso possuem 75% mais chance de serem adolescentes obesos e 89% dos adolescentes obesos podem se tornar adultos obesos – dados que merecem atenção redobrada neste período de pandemia. Para evitar esse quadro, a prática de atividade física e uma boa alimentação são importantes aliados. Além disso, se estimulados desde a infância os exercícios viram rotina e têm impactos positivos também no futuro.



Dicas de alimentação contidas na Caderneta de Saúde do Adolescente, respeitando as condições socioeconômicas de cada família

Saúde na Era Digital

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) atualizou, em dezembro de 2019, o Manual de Orientação #MenosTelas #MaisSaúde com o objetivo de promover a saúde e o bem-estar de crianças e adolescentes em contato constante com tecnologias digitais, como smartphones, computadores e tablets, visto que, o uso excessivo, principalmente neste período de pandemia, pode desencadear o desenvolvimento de transtornos de saúde mental, como irritabilidade, ansiedade e depressão, e problemas comportamentais, como distúrbios de aprendizado, baixo desempenho escolar, atrasos no desenvolvimento, entre outros.

Segundo o documento, dados da pesquisa TIC Kiks Online - Brasil (2018), realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), revelam que “cerca de 20% dos participantes do levantamento relataram contato com conteúdos sensíveis sobre alimentação ou sono; 16% com formas de machucar a si mesmo; 14% com fontes que informam sobre modos de cometer suicídio; 11% com experiências com o uso de drogas. Além disso, cerca de 26% foram tratados de forma ofensiva (discriminação ou cyberbullying); e 16% relataram acesso às imagens ou vídeos de conteúdo sexual. Outros 25% assumiram não conseguir controlar o tempo de uso, mesmo tentando passar menos tempo na internet”.

Suicídio: é preciso romper o silêncio

No contexto do Dia Mundial de Prevenção do Suicídio (10/9), instituído em 2003 pela Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio (IASP) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a campanha Setembro Amarelo, promovida desde 2014, visa conscientizar a população sobre esse grave problema e formas de evitá-lo. O Ministério da Saúde descreve o suicídio como “um fenômeno complexo, multifacetado e de múltiplas determinações, que pode afetar indivíduos de diferentes origens, classes sociais, idades, orientações sexuais e identidades de gênero”.

Conforme dados do Boletim Epidemiológico, lançado em setembro de 2019 pelo Ministério da Saúde, sobre o Perfil epidemiológico dos casos notificados de violência autoprovocada e óbitos por suicídio entre jovens de 15 a 29 anos no Brasil, de 2011 a 2018, “o suicídio representa 1,4% de todas as mortes no mundo, tornando-se, em 2012, a 15ª causa de mortalidade na população geral e a segunda entre os jovens de 15 a 29 anos. No período de 2011 a 2018 foram notificados 339.730 casos de violência autoprovocada, dos quais, 154.279 (45,4%) ocorreram na faixa etária de 15 a 29 anos, sendo 103.881 (67,3%) nas mulheres e 50.388 (32,7%) nos homens”.

O suicídio pode ser prevenido, o primeiro e mais importante passo é saber reconhecer os sinais de alerta em si mesmo ou em alguém próximo a você, com escuta e acolhimento da dor do outro por parte da família e pessoas próximas. Confira a entrevista realizada, em julho de 2018, com o pediatra e psiquiatra da infância e adolescência do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), Orli Carvalho. Nela, foram abordados temas como a cautela para lidar com os casos e a influência das redes sociais na ampliação do debate.

Entrevista com a pediatra e coordenadora do NAP do IFF/Fiocruz, Rachel Niskier

A pediatra e coordenadora do Núcleo de Apoio aos Profissionais que atendem crianças e adolescentes vítimas de maus-tratos (NAP) do IFF/Fiocruz, Rachel Niskier, afirma que é preciso que haja acessibilidade na atenção aos adolescentes por parte das equipes de saúde bem como às famílias interessadas no conhecimento dos seus filhos. “As adolescências se configuram nas sociedades contemporâneas de diversas formas, sendo influenciadas pelos aspectos históricos, políticos, econômicos, culturais, de estruturação social e todas as manifestações pessoais e coletivas que daí advém”.

Para Rachel, os especialistas que se dedicam ao estudo e ao acompanhamento desses indivíduos precisam conhecer, ou reconhecer, os fundamentos e as manifestações da adolescência, e destaca “a imprescindível atualização dos profissionais e a relevante compreensão da família frente a seus filhos dessa faixa etária. Nas últimas décadas tem-se evidenciado o papel fundamental do setor da saúde e de todos os outros profissionais envolvidos na assistência aos adolescentes”.

A pediatra comenta que a adolescência e juventude são temas múltiplos e que a família é fundamental nessa trajetória, acolhendo e dando limites, mas sem jamais comprometer a autoestima desses indivíduos. “Precisamos contribuir no processo de ampliação dos conhecimentos da família e a consequente postura firme e sempre afetuosa, entendendo seu filho adolescente como um indivíduo percorrendo o caminho em direção à fase adulta”.

Rachel conta que historicamente as crianças até os 5, 6 anos, são assiduamente levadas às unidades de saúde pública, e em menor escala aos consultórios privados de pediatria, para acompanhamento do seu crescimento, aplicação de vacinas e demais cuidados. Porém, a partir dessa idade a procura por atendimento vai diminuindo até que os adolescentes se tornam raros pacientes. “A “desculpa” é de que esse grupo adoece pouco e não necessita da atenção pela equipe multidisciplinar, mas é necessário o conhecimento dos seus aspectos biológicos, psicológicos, mentais e sociais. Embora essa faixa etária não apresente quadros de morbidade frequentes, as características próprias dessa fase justificariam a procura por serviços de saúde que estejam capacitados para receber a população adolescente”.

A pediatra também defende a atuação da escola e os benefícios da educação. “No acompanhamento dos adolescentes a escola tem papel importante, devendo atuar na sua área específica, sem deixar de trazer a família para o seu trabalho de complementar a tarefa de entender seus alunos como seres pertencentes à sociedade como um todo. Se receberem educação de qualidade, serão cidadãos produtivos e solidários”.

Para concluir, Rachel ressalta que deve ser garantido aos adolescentes o protagonismo no cenário da sociedade brasileira. “É preciso que os profissionais da saúde, da assistência social e da educação, as famílias, e todos que trabalham em favor de uma adolescência saudável, aqui incluídos os gestores públicos, atuem como promotores da saúde integral da população adolescente, respeitados como sujeitos de direitos, presentes na transformação da sociedade para que ela seja, verdadeiramente, parceira na sua trajetória”.

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